A INFLUÊNCIA DA POESIA CHINESA NOS POETAS BRASILEIROS – por Sonia Sales

O Oriente sempre foi um mistério fascinante para nós ocidentais. Nos tempos mais antigos, por medo e desconhecimento, e atualmente, por respeito e admiração.

A influência do Oriente no Brasil é notória desde os tempos coloniais, como escreveu Gilberto Freire em “Sobrados e Mucambos”.

Os chineses, por exemplo, quando os olhamos de perto, verificamos que são muito parecidos com os brasileiros; alegres ruidosos, divertidos e principalmente gulosos, pois adoram comer. Mas têm uma característica que os diferencia de todos os outros povos: a obstinação extrema em tudo o que fazem.

Durante muitos anos dediquei-me ao estudo das antigas porcelanas e cerâmicas chinesas. Para entendê-las e poder apreciá-las em toda a sua plenitude foi necessário tentar captar o espírito da civilização chinesa, a mais duradoura da história: olhando uma cerâmica arcaica, onde o importante é a pureza das formas, a singeleza dos contornos, ou uma figura geometrizada da Dinastia Tang (618 a 906 d. C.), pode-se perceber semelhanças com a arte ocidental do Séc. XX ou XXI. Por outro lado, um simples colmo de bambu, quase uma abstração, é o suficiente para preencher toda uma pintura.

Espiritual e sensível, a arte chinesa é ao mesmo tempo espantosamente antiga e moderna, tão requintada como sua própria filosofia, tão suave como a sua poesia.

Através destas observações, passei a me interessar pela língua chinesa, que estudei por mais de dez anos. Meus professores foram o poeta e pintor Sun Chia Chin e Nancy Sun sua esposa.

Nancy não só ensinava a língua, como dava noções das tradições chinesas. Ela tratava com muito respeito e carinho os seus animais, pois achava que poderiam ser a reencarnação de algum dos seus antepassados, e jurava que uma rapozinha que rondava sua casa na China era uma sua tia avó. Nancy Sun era uma mulher culta, que havia cursado a Faculdade de Enfermagem e passara vários anos na Líbia e nos Estados Unidos como enfermeira, falava várias línguas e era tradutora juramentada, mas a tradição estava arraigada em seu espírito, como em todos os chineses até a sua época, mas não acredito que esses conceitos ainda persistam nas novas gerações, já tão modernas e emancipadas.

 Nancy, muito bonita e elegante, gostava de contar como fora o seu casamento; ela havia conhecido o Professor Sun nos Estados Unidos, num congresso sobre China, e passado algum tempo, ele, já no Brasil, em São Paulo, escreveu-lhe pedindo-a em casamento. O pedido foi mais ou menos assim:

Você é uma mulher feia, e eu quase velho e sozinho, portanto acho que deveríamos nos casar.

Ela veio, e tiveram um lindo casamento tradicional patrocinado por Paulo Mendes de Almeida, grande intelectual paulista. Reza a tradição que a noiva deve trocar de vestimentas sete vezes e precisa ser conduzida pelo pai, e assim foi. Paulo Mendes serviu-lhe de pai emprestado e ela o reverenciou dali em diante, como se verdadeiro fosse.

A poesia chinesa é repleta de alegorias, metáforas, alusões e palavras de duplo sentido e apesar de não ser tão popular como os haicais japoneses, influenciou vários de nossos escritores, a começar por Machado de Assis, 1839-1908, que em seu livro “Falenas”, de 1870, introduziu oito poemas chineses, a que chamou “Lira Chinesa”, por ele traduzidos, não do chinês, mas do francês, da obra de Judith Walter, pseudônimo de Judith Gautier: “Le livre de Jade”.

“Vou abaixo vogando

No meu batel de luar

Nas claras águas fitando

 fitando o olhar”

 Cecília Meireles, 1901-1964, a nossa grande poeta, também se deixou seduzir pelos poemas chineses, mas tal qual Machado, não conhecia o idioma e se utilizou de traduções inglesas e francesas, vertendo para o português poetas do século VIII como Li Po, 701 dc e Tu Fu, 712 dc  Cecília, por ser mais voltada à poesia, soube melhor captar o espírito da poesia chinesa:

“Minha barca desliza rápida.

Contemplo o rio.

Há nuvens passando pelo céu.”

Também traduzido por Cecília Meirelles é este poema de Tu Fu dedicado a Li Po:

Tu escreves como o pássaro canta. Teu gorjeio? Versos.

Se não cantasses, as manhãs seriam menos vermelhas e

os crepúsculos menos azuis.

Quando a embriaguez te inspira, os imortais inclinam-se

das nuvens para te escutarem, o tempo suspende seu voo,

o bem amado esquece a bem amada.

Tu és o Sol e nós os outros poetas, somos apenas estrelas.

Acolhe ó amigo, o balbucio do meu respeito.

Não se pode deixar de falar na influência da poesia chinesa sobre o concretismo no Brasil. O papel dos ideogramas e a sua ordem das palavras foram fundamentais para alicerça-lo, tendo como principais poetas e teóricos: Haroldo e Augusto de Campos, e Décio Pignatari, na década de 50.

Falando da poesia chinesa Ezra Pound assim escreveu em um dos seus ensaios:

“- Liu Che, Chu Yan, Chia I, os grandes escritores do verso livre que precederam a Li Po,  são um tesouro no qual o próximo século poderá encontrar o mesmo forte estímulo que os homens da Renascença viram nos gregos.”

Chang Dai-Chien, 1899-1983,  considerado um dos maiores pintores chineses do século XX, e por alguns, como a personalidade mais extraordinária da pintura chinesa tradicional nos últimos cinco séculos, também excelente poeta, viveu no Brasil em Mogi das Cruzes, São Paulo, por 17 anos, de 1953 a 1970, deixando alguns discípulos com sua influência, e aqui escreveu belos poemas relacionados à nossa terra. Vamos rever um trecho já vertido para o português:

“Transferimos nosso amor para esse país jovem,

 com seu curioso modo de vida.

As azáleas estão no auge de sua glória:

O Duplo Nove na América do Sul (setembro)

é como a primavera na China,

quando as azáleas  acham-se em plena floração.”

O meu primeiro livro de poemas orientais foi “Mar, começo do Céu”, poemas chineses de 1998, escritos à maneira Tang. Quero ressaltar que não são traduções, mas poemas criados no estilo da poesia chinesa. Deles assim falou o Dr. Alexander Chung Uan Yang, Professor de Língua Chinesa da Universidade de São Paulo – USP, que também os verteu para os ideogramas chineses.

“- Fiquei muito admirado com os poemas de Sonia Sales. Ao traduzi-los, não pude deixar de notar a extrema beleza e semelhança com o vocabulário utilizado na Dinastia Tang.

Assim concluí, que estava trabalhando com obras de nível elevado, sentindo-me privilegiado em ter a oportunidade de estar em contato com elas”.

 Bem, de algum modo esta minha imensa admiração pela cultura do “País do Meio”, encontrou eco no meu coração, e foi como uma mulher chinesa de quase 2000 anos, que escrevi estes poemas.

“Tenho saudade do meu ontem.”  “Pensando, pensando, deixei a vida passar.” “A noite já é dia e eu ainda não dormi.” “A terra é minha testemunha, os olhos de Buda o meu vazio.” “O amor é como o sonho, repleto de juventude.” “Saltando no infinito pequenos grilos iluminam a solidão”. “Como o lótus nascido do silêncio. O monge medita as transições da lua, a transparência do vidro. O nada ser, para encontrar o sempre.” “Sem a esperança do eterno, não há o sentido da vida.”

Como podemos ver a poesia chinesa apesar de sucinta e muitas vezes repleta de simbologia e de difícil interpretação, é até hoje uma fonte de inspiração nas letras brasileiras.

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