Maria Paula Meneses, a antropóloga das ecologias de saberes – por Boaventura de Sousa Santos

Maria Paula Meneses, a antropóloga das ecologias de saberes

por Boaventura de Sousa Santos

 

(A propósito da publicação do livro de Maria Paula Meneses, Moçambique e o Sul global: uma perspectiva a partir das epistemologias do Sul. Volume 1: Teoria e História; volume 2: As ecologias de Saberes. Coimbra: Edições 70, 2026).

Maria Paula Meneses

Maria Paula Meneses foi uma das mais brilhantes antropólogas da sua geração. A sua obra pôs Moçambique no mapa mundial das ciências sociais, em especial no respeitante aos estudos pós-coloniais.  Moçambique tem uma comunidade vibrante de cientistas sociais, mas o que faz sobressair Maria Paula Meneses é o facto de ela partir de Moçambique, sem nativismos nem exoticismos ou essencialismos, para, através de propostas teóricas e estudos empíricos, dar simultaneamente conta das especificidades do seu país e de as contextualizar nos desafios que a África e o Sul global enfrentam no mundo contemporâneo dominado pelo capitalismo, pelo colonialismo e pelo patriarcado. Escrevendo, dando palestras e publicando em várias línguas e em vários continentes, Maria Paula Meneses contribuiu decisivamente para contrariar o facto de se saber pouco sobre os países africanos que estiveram sujeitos ao colonialismo português e de o pouco que sabe ter sido escrito a partir das experiências históricas e perspectivas analíticas dos países sujeitos ao colonialismo francês ou inglês. As ideias de Maria Paula Meneses não são ideias fora do lugar, são, pelo contrário, ideias próprias do lugar para, a partir dele, trazer novidades à compreensão do mundo.

Uma obra vasta, construída em pouco mais de vinte anos, tem algumas características que a salientam no panorama actual dos estudos pós-coloniais. A sua base teórica assenta nas epistemologias do Sul às quais deu uma consistência e uma densidade muito específicas através do modo como combinou sofisticação teórica com trabalho empírico sólido. Nas águas subterrâneas da obra de Maria Paula Meneses é audível um triplo apelo: o apelo à complexidade, o apelo contra os estereótipos e as falsas generalizações, e o apelo à auto-reflexividade.

Os apelos epistémicos e teóricos

O apelo à complexidade é particularmente exigente para as epistemologias do Sul porque elas assentam numa dicotomia originária e fundante de toda a modernidade eurocêntrica: a linha abissal entre a sociabilidade metropolitana (dominada pela tensão entre regulação e emancipação) e a sociabilidade colonial (dominada pela tensão entre apropriação e violência). Esta dicotomia corre sempre o risco de ser factor de reducionismo, se não for analisada em toda a sua materialidade, no dinamismo das relações desiguais sempre mutantes que origina. Exemplo máximo deste apelo à complexidade é a análise da xenofobia na África do Sul. Trabalhadores negros oriundos de países vizinhos são vítimas de actos de xenofobia praticados por trabalhadores negros sul-africanos. Como é possível que vítima se vire contra vítima? Outro exemplo reside no modo como analisa a distinção entre sociedade moderna e sociedade tradicional nos diferentes domínios em que esta distinção é accionada por diferentes grupos sociais ou pelas políticas estatais, seja no domínio do direito, da administração pública ou da medicina/saúde.

O segundo apelo é um constante alerta contra os estereótipos e as falsas generalizações. Este apelo é particularmente relevante para leitores/as e cientistas sociais do Brasil. Em múltiplas ocasiões (em escritos, palestras ou aulas) Maria Paula Meneses criticou o modo estereotipado e falsamente generalizador como as ciências sociais brasileiras abordam em geral os temas e os estudos africanos. É como se para elas a África fosse um único país, e não um conjunto de 55 países reconhecidos pela União Africana. Entre eles há uma grande diversidade de culturas, de organizações e conflitos sociais, de sistemas e soluções políticas e de opções geoestratégicas. Não se trata apenas da diferença entre os países ao Norte do Saara e os países ao Sul do Saara, ou entre países da África Ocidental e países da África Oriental. Em cada uma destas regiões, há uma variedade enorme dificilmente captável por designações como “África é..”. Além disso, as características internas são dinâmicas e estão em constante mutação, ao contrário da ideia de estagnação que o pensamento eurocêntrico criou sobre África, sobretudo a partir do século XIX, e que continua a dominar no nosso tempo.

O terceiro apelo é o de ter sempre presente a necessidade da auto-reflexividade. A cientista social moçambicana nunca esquece a sua dupla condição de ser simultaneamente uma insider (alguém que pertence como agente à cultura e aos processos sociais e políticos que analisa) e uma outsider (alguém que tem de manter uma distância crítica para poder analisar). Claro que este problema é comum a todos os cientistas sociais quando estudam os seus próprios países, mas atinge uma acuidade especial em países do Sul global porque, apesar de o epistemicídio produzido pela modernidade eurocêntrica ter sido aí mais intenso, é deles também a região do mundo onde a diversidade cultural e a diversidade cognitiva mais resistiram e estão presentes.

Maria Paula Meneses domina como poucos o conhecimento científico, que convida à distância e à objectivação, mas conhece, como vivência pessoal da sua história de vida, os conhecimentos das comunidades que convidam e, de facto, constituem mecanismos de pertença. A distinção sujeito/objecto que as epistemologias do Sul rejeitam passa a exigir uma vigilância muito especial sobre quem é o “nós “ e o “eles” da relação de investigação. O facto de estar bem consciente desta vigilância faz com que Maria Paula Meneses tenha escrito páginas magníficas sobre a auto-reflexividade, por exemplo, na parte final do texto que dedicou aos conflitos e à gestão ambiental em Licuáti, no Sul de Moçambique.

Os contributos paradigmáticos

Maria Paula Meneses enriqueceu enormemente as epistemologias do Sul. Embora seja difícil sintetizar um contributo tão vasto, eu distingo quatro domínios de particular excelência.

O primeiro domínio é a ecologia de saberes. Maria Paula Meneses analisou como ninguém as complexas dinâmicas de complementaridade ou de antagonismo entre os diferentes conhecimentos em presença em qualquer dos temas e realidades que estudou. A partir dessa análise, detectou ecologias de saberes emergindo das práticas sociais que facilmente passariam despercebidas a qualquer investigador/a menos atento/a.

Ninguém antes tinha conseguido explorar o conceito de ecologias de saberes em tantos domínios sociais como ela. Trabalhou com igual brilhantismo em três campos principiais: o direito, a medicina/saúde e a ecologia/meio ambiente. Correspondentemente, construiu ecologias de saberes jurídicos, ecologias de saberes médicos e ecologias de saberes ecológicos que vão servir de referência a quem aborde no futuro estes temas a partir das epistemologias do Sul. A razão pela qual Maria Paula Meneses levou tão longe a construção de ecologias de saberes foi o facto de ela dominar tão bem o conhecimento científico moderno como os conhecimentos vernáculos em circulação no tecido social. É, sem dúvida, a antropóloga da ecologia dos saberes. É, pelo menos, a cientista social com mais êxito neste domínio que conheci em toda a minha longa vida científica.

O segundo domínio de excelência é o da articulação entre tempos históricos, sobretudo entre o tempo presente e a história recente do jovem país independente, Moçambique, que se libertou do colonialismo português em 1975, depois de anos de luta de libertação que custou milhares de vidas. Maria Paula Meneses viveu intensamente esse período e, mais uma vez, soube enriquecer o conhecimento analítico e histórico com a sua trajectória pessoal enquanto vivência e agência política. A sua formação científica foi de uma diversidade e de uma riqueza únicas: mestrado em história e antropologia na Universidade de Leninegrado (hoje, São Petersburgo, Rússia) e doutoramento em antropologia na Universidade de Rutgers nos EUA. Esta formação permitiu-lhe analisar como ninguém o passado à luz do presente e o presente à luz do passado.

No que respeita ao presente e passado recente teve vivência experiencial em primeira mão e foi, aliás, uma profissional dedicada, tanto na Universidade Eduardo Mondlane do Maputo, como no Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia. Mas Maria Paula Meneses tinha também um conhecimento profundo do passado pré-colonial, sem o qual, aliás, não se poderiam compreender as dinâmicas políticas e as tensões que dominaram a primeira década do Moçambique independente. Os estudos de Maria Paula Meneses sobre o último período do colonialismo e o primeiro período de independência são um marco de referência para a compreensão do Moçambique contemporâneo. São também um repositório das melhores aspirações revolucionárias que alimentaram o novo país e em que a jovem Maria Paula activamente participou. Penso que esta é a melhor dádiva desta brilhante antropóloga prematuramente falecida às gerações futuras de Moçambique.

O terceiro domínio de excelência é o modo como Maria Paula Meneses, fiel à melhor tradição do pensamento crítico, distingue no seu trabalho entre objectividade, que procura, e neutralidade, que rejeita. Maria Paula Meneses parte dos três modos principais de dominação modernos – capitalismo, colonialismo e patriarcado – e analisa-os sempre em conjunto. Isso não a impede de dedicar particular atenção ao colonialismo e ao patriarcado. As análises de Maria Paula Meneses são particularmente lapidares e reveladoras das rupturas e das continuidades entre o período colonial e o período pós-independência. Tais análises não se limitam ao país, estendem-se também ao contexto internacional, à Guerra Fria e, sobretudo, à África Austral, dada a vizinhança de Moçambique com países que durante alguns anos se mantiveram como países hostis, muito especialmente a África do Sul do apartheid.

A crítica de Maria Paula Meneses ao patriarcado é verdadeiramente inovadora e totalmente distinta do feminismo eurocêntrico promovido por ONGs internacionais que continua a infestar tanto o Sul global como o Norte global. Maria Paula Meneses critica radicalmente o identitarismo dominante. O seu trabalho salienta a participação das mulheres na luta anticolonial e as lutas das mulheres trabalhadoras pelo acesso à terra. Portanto, ao contrário do identitarismo estéril, que converte o patriarcado no único modo de dominação contra o qual as mulheres legitimamente devem lutar, Maria Paula Meneses mostra a participação das mulheres na luta anticolonial, sem descurar a análise da frustração das mulheres em alguns domínios da vida pública e privada pós-independência. Por outro lado, Maria Paula Meneses mostra as mulheres em luta pelas suas machambas e pelos conhecimentos vernáculos contra o desenvolvimentismo promovido pelo Banco Mundial. E para surpresa de muitos, passa dos saberes aos sabores (com a mesma raiz etimológica), ao papel das mulheres que, num lugar marginal-central da casa, a cozinha, constroem diálogos de sabores nas viagens e torna-viagens das plantas e das especiarias desse mágico Oceano Índico, que ainda hoje o poeta português Luís de Camões olha maravilhado a partir da Ilha de Moçambique.

Finalmente, o quarto contributo de excelência de Maria Paula Meneses é no campo da educação, sobretudo da educação superior, a Universidade pública. Como cientista e como alta funcionária pública no Ministério do Ensino Superior Ciência e Tecnologia, Maria Paula Meneses participou activamente na construção da educação no primeiro período pós-independência. E analisou com imensa frustração o modo como os projectos revolucionários que visavam construir as diferentes modernidades de Moçambique foram progressivamente sucumbindo e rendendo-se, por pressão externa e interna, a uma dessas modernidades, a modernidade eurocêntrica.

Para além da magnitude da obra escrita, a Maria Paula Meneses foi uma mestra de pensamento. Estudantes e colegas que com ela conviveram lembrarão para sempre a argúcia dos seus argumentos, a erudição das suas respostas, a vivacidade dos diálogos onde cada resposta fácil era confrontada com uma pergunta difícil, uma excepção pouco conhecida, um livro que ninguém lera, um autor de que ninguém tinha ouvido falar, sobretudo se era do Sul global. Maria Paula Meneses era a celebração do saber vivo – e talvez por isso conversar e aprender com ela era tanto um saber como um sabor.

 

 

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