INTRODUÇÃO
A presente versão deste ensaio deve ser tomada pelo leitor como um inicial esboço de formas complementares que, muito brevemente, assumirá um diverso desenvolvimento e assim chegará a atingir a intenção final de escritura do autor.
Neste esboço procura-se uma metodologia adequada ao tema, bem como uma possível equação ideal do tema. Posteriormente, o mesmo manterá as linhas apenas assumidas em forma precária.
Parte I. Tradição e construção
A história dos países jovens, em particular daqueles do continente americano, oferece um processo de afirmação que se baseia em diversos elementos retóricos, em particular na distinção entre passado e tradição. Naturalmente são valores que levam muito tempo para afirmar-se e, mais ainda, para distinguir-se. A construção do passado, de qualquer tipo de passado, pressupone o desenrolar do tempo. E sabemos todos quão lentos são aqueles das realidades físicas e dos países delas derivadas. Enquanto passam as gerações de homens e mulheres, essa realidade física se deixa ver modificada muito relativamente. Porém, depois de um tempo, lentamente se passa a comprovar as diferenças de um presente, vivido e sentido, e algo de aparentemente distante, mas próximo, que é o passado propriamente dito. Naturalmente pode-se concluir que os elementos de permitem tais percepções são determinadas novas tomadas de consciência da realidade física em clara auto-definição. A partir de então, os homens começam a distinlguir nessa reveladora história gradações de tempos passados. Aquele mais marcantes passam a receber o título de tradição. A tradição não deve ser jamais lida como algo melhor ou pior na historia de uma comunidade civil, mas sim como momentos especiais que passam a configurar tal história e tal comunidade. No memorável momento em que o homem passado se empossessa de tal distinção, começa a construção racional de um país.
Considerando tais premissas, a construção do Brasil colonial começou muito cedo, pois já em figuras com aquela do primeiro donatário de Pernambuco, Duarte Coelho, encontramos testemunhos de uma tal tomada de consciência. O luso-brasileiro Duarte Coelho apenasinstalado na sua capitania, a mesma que conhecerá muitos progressos e que saberá transformar continuamente os dados passados em elementos de tradição, ele logo sabe valorizar a nova terra. Suas famosas “Cartas” ao rei de Portugal, convidando o Soberano a não transladar toda a riqueza recolhida na colônis para Lisboa, mas deixar parte dela na terra de origem para permitir assim que mais riquezas fossem conquistadas, formam um quadro construtivo de uma terra no qual, pela primeira vez, pode-se ver com clareza, a projeção de um luso-tropicalismo utópico que poderia ter dado mais resultados concretos de quantos não se verificaram realmente.
Começa assim a parte melhor da construção de um Brasil colonial. Aparecem pela primeira vez elementos que mais tarde, nos séculos de maior progresso, o país saberá viver para muito lentamente elaborar uma sua realidade estável e autônoma. Mas essa será uma história construtiva que teima em fazer-se obscura e de difícil colocação. Muitos são os episódios que a marcam: o encontro de tantos habitantes da terra nas lutas contra os holandeses no Nordeste, fenômeno de grande importância para a definição dos tipos que formarão uma das riquezas das futura nação brasileira, a miscigenação dos diversos tipos énicos que já a compõem. Assim europeus, índios, africanos se individualizam e passam a permitir a Gilberto Freyre a lenta elaboração de suas grandiosas teorias socio-culturais. De igual importância é o movimento da Conjuração mineira, de triste epílogo, mas que trouxe para o Brasil as maiores riquezas culturais que o Iluminismo poderia conceder, bem como as melhores lições derivadas das Revolução que levou os Estados Unidos da América do Norte à sua declaração de independência. A partir dela, os brasileiros também se preparam para a independência nacional que se aproxima. Depois do importante episódio histórico da chegada em 1808 de Corte portuguesa no Rio de Janeiro, o grito de independência de 1822 já se encontra na garganta dos patriotas brasileiros.
Parte II. Tadição e modernização
Com a independência política começa toda uma nova fase de desenvolvimento do país. A herança colonial continuará a pesar por longo e quase indefinido tempo, porém o tempo inédito sabe, em meio às difíceis peripécies da nova realidade da comunidade civil do Brasil, avançar na direção da afirmação dos melhores valores recolhidos da tradição. Uma tal afirmação que parece, e em verdade é assim não ter fim, denomina-se “modernização“, ação que a partir de seu início continuará a perseguir sempre novas linhas.
A modernização é uma derivação direta da tradição. Mas, igualmente, sabe confrontar-se com aquele outro valor, o do tempo passado, para melhor atingir suas metas, isto porque a dimensão do passado pode conter resíduos de grande importância histórico-antropológico para o continuado afirmar-se da modernização.
Porém, será sempre da tradição que essa saberá abrir fronteiras sem fins. Isto principalmente porque a tradição oferece em particular duas dimensões amplas de continuado progresso para a comunidade civil: “constantes” e “recorrências“. As constantes são aquelas manifestações vinda de madura tradição que se repetem, sem repetir-se, nos tempos novos, chegando mesmo a dar-lhes as linhas mais gerais; as recorrências são aqueles elementos tradicionais que sem chegar a ser substanciais para o tempo da modernização consegue insuflar-lhe valores altamente positivos.
A partir de 1822 a afirmação dos novos tempos brasileiros afirmam todos esses elementos. Ainda que o faça numa forma pouco coerente, pouco lógica, mas até mesmo parodocal em tantas circunstâncias. A Monarquia, regime a que os patriotas brasileiros tiveram de aderir para a afirmação da independência, desde a sua inauguração até a sua conclusão em 1889, não soube estabelecer na nova realidade social aqueles valores indispensáveis à melhor afirmação da modernização: estabelecimento de clara estrutura social, com as categorias correspondentes expressas claramente, pois passa todos esses longos sessenta e sete anos de regime dominante ignorando condições de modificações das condições sociais do brasileiro que vivia diante de um minoria aristocrática, servida por uma pequena parte de intelectuais e empregados civis; uma indefinida camada de negociantes que administram as poucas rendas que tocam ao setor privado; uma infinita camada de indivíduos sem clara posição sócio-política na sociedade sempre nascente. A economia é dirigida e super-controlada pela aristocracia e pouco incide num desejado e sempre esperado desenvolvimento da comunidade civil, quase sempre muito pobre. A cultura, esta é mais ainda aristocrática e direito de poucos. O segundo Imperador a galardoa em maneira constante, mas sem chegar a propor jamais uma verdadeira revolução cultural. O pouco de cultura que a comunidade apresenta é o heróico resultado do esforço dos indivíduos cultos, singulares agentes de um processo que em verdade requer estruturas mais compactas. A vida social se exprime sempre apoiada em valores de claros conflitos com a mesma comunidade com a qual comparticipa. O mais deprimente destes valores se refere à escravidão dos negros africanos. O Brasil deverá levar até 1888 a pecha de último país independente do ocidente a manter ativa a escravidão, isto apesar das batalhas de tantos patriotas no decorrer de todo o século XIX.
Lentamente, porém, aparecem movimentos isolados ao poder monárquico que movem de forma bastante substancial a vida do páis. O Positiivismo é um desses movimentos. Com ele o Brasil atinge melhores formas de modernização e se lança naquele movimento mais radical direto à modernização que é o regime republicano. Finalmente este será alcançado em 1889.
No decurso de todas essas peripécies sobressaem-se indivíduos que, pela própria ação pessoal, apressam a conquista de um melhor ritmo de modernização no país. São verdadeiros e isolados heróis que dão uma nova figura à realidade brasileira, ainda que muitas vezes limitados pelo extra-poder do regime anti-progressista. Para nossa melhor orientação, entre os tantos possíveis exemplos dessa heroicidade, escolhemos como modelo dessa substancial ação individual elegemos a figura de Machado de Assis, pois nele, brasileiro mestício, filho de português com uma mulata originária do Rio de Janeiro, auto-didata, genial criador literários e modelo de cultura a que uma individualidade pode chegar mesmo num ambiente de sub-desenvolvimento, nele vemos a síntese do herói que melhor conduz o Brasil a uma constante modernização.
Na abertura de meu livro, Machado de Assis e a Modernidade brasileira (ed. Academia Brasileira de Letras-Edições Galo Branco, RJ, 2009, p. 7), eu escrevi:
“Machado de Assis realiza uma obra que, revelando-se como insólito sistema literário, se afirma como referência privilegiada para o melhor conhecimento dos diversos tempos da literatura brasileira. O seu realismo não é aquele histórico, confinado à ortodoxia da Escola, mas uma atitude diante da realidade expressa por uma concepção não comum da natureza. Ele é, ao mesmo tempo, inaguração de uma literatura e testemunho da tradição solidamente conquistada pela história desta mesma literatura. Nele, através das invenções de uma linguagem capaz de constante criação, o poético mais moderno toma a posição principal no sistema literário revelador não só da dimensão individual, mas igualmente daquela de uma realidade naciona. “
Por tais e outras razões, elegemos o ano de 1908, aquele da morte de Machado de Assis, como momento inicial da passagem do constante e assumido processo de modernização do Brasil para aquele outro de sua pré-Modernidade.
Parte III. Modernização e modernidade
O conceito de pré-modernidade, bem como aquele formado por diversos prefixos da mesma intensidade deste pré-, sofre do fato de pouco traduzir de realmente concreto no melhor sentido retórico. O chamado Pré-modernismo, de 1908 s 1922, oferece todos esses problemas.
Continuado sem interrupção o conceito de modernização do Brasil por todo o século XIX, com a afirmação do novo regime republicano o fenômeno continua na sua lógica histórica, mas a República cedo demonstra que pouco modificou a realidade da comunidade nacional brasileira. Em verdade, uma realidade de grande importância se verifica, aquela referente às classes sociais. Ao contrário de quanto aconteceu no Oitocentos, o século XX republicano propõe modificações no setor que levam a comunidade brasileira a assumir uma nova fisionomia. A melhor razão dessa conquista se encontra, sem dúvidas, no fim da aristocracia monárquica e uma maior afirmação da classe-média. Tal afirmação, traz para a vida ativa da comunidade nacional um maior número de protagonistas e o progresso tende a acentuar-se. São esses os fatores principais que se encontram nas raízes do Movimento Modernista de 1922 que inaugura finalmente um orgânico conceito de modernidade. Desde então, ao lado da perseverante ação de modernização, o país se vê movido por um outro fator, a modernidade. Modernização e modernidade se completam e se influenciam recíprocamente. Daí em diante, o Brasil sabe encontrar alguma novas revolucionárias formas de progresso, ainda que a crise da I República tem necessidade, em 1930, de uma verdadeira revolução para restabelecer certos valores, principalmente aqueles sócio-econômicos, a que o país não sabe substrair-se completamente e como consequência da sempre presença do estado de sub-desenvolvimento de origem colonial. Sub-desenvolvimento que leva a genialidade do economista Celso Furtado a elaborar a forma de atuação e de relativo crescimento da economia do Brasil como um fenômento de crescimento ainda que dentro do conceito de sub-desenvolvimento.
A modernidade do período, por isso mesmo, é ainda predominantemente cultural. O Modernismo literário o mérito de encaminhar o país a uma modernidade praticamente inédita que perdura longamente.
Parte IV. Modernidade, (de)construção, reconstrução
Essa modernidade percorre praticamente todo o século XX e tende a renovar-se a cada momento, mesmo quando aparentemente se confronta com períodos de quase conclusão enquanto ciclo.
Nos momentos em que se apresentam mais fortemente tais predisposições, a modernidade sabe confrontrar-se consigo mesmo e realizar uma ação retórica de (des)construção. O conceito, quase em sentido próprio dos neologismos, não é jamais radical. Significa mais propriamente construir novamente segundo as linhas principais da fase anterior. Segundio coerentemente tal predispoção a (de)construção retorna a ser construção.
Parte V. O possível modelo brasileiro
Já em 2007, e como suplemento ao seu número 3, a Revista italiana de geopolítica, liMes, com grande número de colaborações internacionais, dedicou um dos seus quadernos especiais ao Brasil, sob o título Brasile la Stella del Sud – Nascita di una potenza (Brasil a Estrela do Sul – Nascimento de uma potência). Era consequência do grande progresso vvida pela comunidade civil brasileira, inicialmente e muito timidamente com Fernando Henrique Cardoso, depois em plenitude com os dois governos Lula, de 2002 a 2010, e aquele da primeira mulher brasileira, Dilma Rousseff, de 2010 a hoje.
Em 2005 vinha cunhada a sigla BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – corrrespondente às quatro potências emergentes do mundo mundo moderno. Mais adiante, a sigla se alarga, BRICS, com a anexação da África do Sul de Nelson Mandela. Desde então o Brasil passa a liderar a realidade do hemisfério sul da América e a participar intensamente nas competições internacionais, entrando de direito no Grupo dos 20 que modernizou a presença do quase superado tradicional Grupo dos 8. O Brasil, desde então, leva adiante a experiência de governos socialista-trabalhista, com constante progresso social. Surge assim para o país e com perspectivas amplas que miram em particular as comemorações previstas para o II Centenário da Independência, em 2022, uma definida natureza enquanto potência internacional, a 5ª. na classificação mundial dos países mais industrializados, depois de superada pela primeira vez a Grã-Bretanha, e continuado progresso sócio-econômico. Surge a Estrela do Sul.
Desde então, a opinião pública internacional passa a ver no Brasil um possível modelo de vida. Ao ponto de surgir em muitas partes o slogan interrogativo, “Somos todos brasileiros?”. Analistas e teoricos de conceitos semelhantes são estudiosos europeus como o italiano Giuliano da Empoli, autor do estudo, Tra edonismo et paura: il nostro futuro brasiliano (Entre hedonismo e medo: o nosso futuro brasileiro) , logo traduzido em francês e em outros idiomas.

