Está a terminar o verão, mais um verão dramático para a floresta nacional e, acima de tudo, trágico para os bombeiros portugueses.
Creio que está por fazer justiça, de Portugal enquanto Estado, ao Bombeiro Português. Não da nação, que essa demonstra uma vincada consideração e carinho pelos seus bombeiros. Não há, praticamente, cidade ou vila deste país que não tenha o, ou os seus monumentos ao Bombeiro, muitas vezes resultado de cotização popular. No dia-a-dia, individual e coletivamente, os portugueses recorrem aos bombeiros, e sabem que podem contar com eles. O povo nutre por eles confiança e estima.
Lembro-me, na minha juventude, no início da minha carreira militar, de acordo com uma certa deformação da mentalidade elitista da época, havia tendência para olhar com sobranceria os “fardados” não militares, polícias, guardas dos mais diversos organismos, bombeiros. No essencial havia uma razão de fundo, a convicção de que aos militares estava reservada a honra de, ao serviço da pátria, sacrificarem a própria vida.
Os tempos mudaram. Os conceitos de segurança, de defesa nacional, de condição militar, evoluíram. Dantes aos militares cabia enfrentarem as ameaças contra os valores pátrios e, como o serviço militar era geral e obrigatório (com a condicionante negativa, mas própria de uma época, de ser limitada aos homens), essa entrega era extensível a toda a nação através da passagem dos seus filhos pelas fileiras. A missão prioritária dos militares era a defesa dos interesses nacionais, soberania, território, gente, património, contra ameaças e agressões externas.
Hoje os conceitos estratégicos transferem a prioridade das missões dos militares, uma restrita corporação de profissionais, para a participação em ações no exterior, a defesa nacional inscrita num quadro multinacional, longe do território pátrio, muitas vezes em defesa de interesses estranhos e de objetivos dificilmente identificáveis como nacionais. As baixas que os militares têm sofrido vêm sendo, e ainda bem, insignificantes.
Entretanto no interior do país vem-se perfilando um perigo maior, as catástrofes ambientais, com relevo para os incêndios de verão e esses, são os bombeiros que os enfrentam. Com a ajuda de militares, da GNR, da PSP, de guardas florestais, de populares. À volta dos bombeiros profissionais (sapadores), juntam-se os bombeiros voluntários, que hoje são as verdadeiras estruturas de mobilização e recrutamento nacional na defesa dos interesses nacionais. São os bombeiros os operacionais, os que estão nas zonas mais sensíveis, os que enfrentam os maiores perigos. E os que morrem. Morrem ao serviço da pátria.
A doutrina clássica fazia distinção entre ameaças e riscos. Ameaças tinham origens intencionais, racionais, partiam de alguém, de um outro, eram do domínio da estratégia e cabia às Forças Armadas enfrentá-las. Riscos tinham origem na natureza, eram ocasionais e não da responsabilidade de um outro, situavam-se no domínio de um patamar inferior à estratégia, do mero planeamento. A tendência atual é para incluir ameaças e riscos num âmbito abrangente, o da segurança. Há uma estratégia global de segurança nacional. Até porque se dilui a fronteira entre ameaças e riscos, na medida em que as catástrofes naturais, os riscos, têm muitas vezes origens humanas ou são agravadas por intervenção humana, por desleixo, por deficientes previsões, ou até por intenções criminosas. As agressões ambientais, para as quais contribui a desadequada utilização do avanço da ciência e da técnica ao serviço da desenfreada cupidez humana, são um misto de risco e ameaça.
Os bombeiros estão na primeira linha do combate contra esta gama de agressões, em defesa dos valores nacionais e são os que, ao seu serviço, têm colocado o valor supremo das suas vidas. Sacrifício da vida em defesa de bens como a integridade dos seus semelhantes, a propriedade coletiva e individual, o património cultural, em resumo, o interesse da pátria. O Bombeiro Português é, hoje, o agente maior da Segurança Nacional. Vida por vida, é o seu lema carregado de simbolismo humanista.
Na próxima cerimónia pública que envolva apresentação de forças nacionais penso que os portugueses gostariam de ver, a abrir o desfile, uma corporação mista de Bombeiros Sapadores e Voluntários, em representação do Bombeiro Português. Com as suas armas tradicionais, o capacete dourado e o machado, são paradigma da condição que todo o verdadeiro militar de hoje gostaria de invocar, Soldados da Paz.
9 de Setembro de 2013
