PESTE BUBÓNICA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Em Paris o Dr. Roux insiste que eu, Osvaldo Cruz, fique no Instituto Pasteur. Agradeço o convite mas o meu país não pode estar condenado a ser, para sempre, um vasto hospital.
Regresso ao Brasil em 1899. Durante a travessia do Atlântico evito o convívio com os outros passageiros, não suporto a ignorância endinheirada.
Desço no Rio. Mal acabo de abraçar e beijar Emília quando me dão a notícia: no porto de Santos deflagrara epidemia de peste bubónica.
O Instituto de Higiene encarrega-me de avaliar a extensão do mal.
Viajo para Santos. Investigo e concluo que um navio, oriundo do Oriente Médio, desembarcara ratos contaminados. Consequência: a peste alastrara pela cidade. Centenas de vítimas agonizam pelas ruas. Outras tentam fugir para o interior, espalhando o mal. E se o mesmo navio tocou no Rio de Janeiro, ou um doente para lá fugiu, a peste eclodirá na capital. Já não nos bastava a febre amarela? Agora também a peste bubónica, a que muitos chamam de peste negra?
É urgente dispor do soro para combater o flagelo. Mas importá-lo pode implicar demora fatal. Melhor será produzi-lo aqui. É decidido que na fazenda de Manguinhos, nos arredores do Rio, seja instalado o Instituto Soroterápico Nacional. “Não há no país um técnico competente para dirigi-lo”, é o que dizem os governantes. São incapazes de avaliar a capacidade de um Adolfo Lutz, de um Vital Brasil, de um Emílio Ribas, de um Carlos Chagas (este acabará por trabalhar comigo em Manguinhos). Somos cinco investigadores; sabemos que as doenças tropicais, contrariamente ao que se apregoa, não derivam nem da maresia, nem do clima quente e húmido, mas de micróbios patogénicos transmitidos por alguns animais, tais como insetos e ratos. Porém a ignorância está no poleiro e os governantes escrevem ao Dr. Roux, do Instituto Pasteur. Pedem-lhe que indique e ceda um dos seus colaboradores para comandar o projeto. O Dr. Roux responde (humor gaulês) que um dos seus técnicos mais qualificados vive no Rio de Janeiro, chama-se Osvaldo Cruz… Nós, brasileiros, somos assim: o que temos em casa não presta, só o que está lá fora é que é bom… Creio que herdámos esta pecha dos portugueses (e que eles me desculpem por esta observação…).
Convidam-me, aceito e em Julho de 1900 eis-me à frente do Instituto de Manguinhos, um pardieiro com um nome pomposo. A mesa de reuniões é uma porta velha assente sobre barricas e as cadeiras são caixotes…
Tenho que formar e disciplinar equipa. Lembro-me de estar a autopsiar uma cobaia quando irrompe um fogo numa das dependências de Manguinhos. Figueiredo de Vasconcelos, o meu assistente, começa a correr para ir apagar o fogo. Peço-lhe:
– Por favor, o que nós começámos, nós vamos acabar. Já está lá muita gente para apagar o fogo…
Pouco tempo depois a minha equipa consegue produzir o soro que é logo enviado para Santos. E, a partir de São Paulo, Adolfo Lutz faz o mesmo. Resultado: baixa drasticamente a mortalidade provocada pela peste.
No Rio de Janeiro, como eu previra, a peste também acabou por eclodir. Nos bairros populares ponho vários “homens da corneta” a comprar ratos mortos a 300 réis a cabeça. O povo acha graça e assim vinga, na cidade, a caça ao rato. Vinga também uma modinha divertida, “rato, rato, rato, por que motivo roeste o meu baú?” No Rio de Janeiro a aplicação do soro e a caça ao rato liquidam a peste em três meses.
Um dia, por causa de um incêndio, dei um puxão de orelha ao Figueiredo de Vasconcelos. E agora ele diz a meu respeito:
– Foram as suas qualidades morais que o fizeram vencer! Só uma envergadura especial como a sua poderia dar cabo da tarefa em tais condições. Tudo teve de fazer, desde o preparo do material à parte técnica, dando-nos um exemplo admirável de tenacidade e esforço. Foi a sua energia manifestada entre sorrisos, foi a sua exigência pedindo habilmente por favor, foram as suas qualidades de trabalhador infatigável, que fizeram dele o triunfador inesquecível. Não mandava apenas; trabalhava, ultrapassando a todos e a tudo com seu grande amor à ciência.

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