O folhetim revolucionou a forma de narrar, transformando a segmentação do romance, ditada por questões de ordem prática, numa componente essencial da própria técnica narrativa. O folhetim, o fascículo, os filmes de acção divididos em partes, as radionovelas, as telenovelas… e os thrillers – todos usam a pausa. E nestes últimos as suspensões já não são ditadas senão pelo valor narrativo da interrupção – as razões não são de natureza prática – a pausa, a interrupção da sequência, são já uma técnica literária.
O folhetim surgiu como um expediente de fidelização dos leitores dos jornais e revistas. Conhecer o desfecho dos imbróglios com que no «rés-do-chão», a história era interrompida, obrigava a comprar o jornal do dia seguinte. O fascículo vem permitir a uma população iletrada e sem dinheiro para comprar livros, ler ou ouvir ler aventuras palpitantes, mergulhar em histórias de amores impossíveis… poder, por momentos, sair do mundo cinzento em que vivia. E nem sequer era preciso comprar o fascículo – bastava alugá-lo. O encarregado das entregas, receberia a devolução do fascículo anterior, se estivesse em condições, e cobraria apenas uma pequena importância.
O cinema, quer o mudo quer o dos primeiros tempos do sonoro, aproveitou a ideia e as séries de filmes, a partir dos anos 20, deixavam os espectadores ansiosos com cenas finais de o herói ou a sua namorada, ou ambos, atados aos carris com um comboio a aproximar-se uivante e veloz.
No nosso folhetim, que começará a ser publicado dentro de pouco tempo, prometemos que não haverá heróis atados aos carris. O Sérgio Madeira terá de arranjar outras soluções. A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL, o título não nos dá muitas pistas. Mas lá que é incomum…