SOBRE UMA GRANDE E DURADOURA AMBIÇÃO, SOBRE O PASSADO; SOBRE O FUTURO DA ÍNDIA – Por SATYAJIT DAS – IV

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Satyajit Das, Maio de 2012.

(CONTINUAÇÃO)

Dificuldades bancárias (…).

A desaceleração do crescimento, as alterações mais exigentes na concessão de crédito entre outros problemas económicos, têm gerado um aumento de incumprimentos por parte das grandes empresas, que atingiram o seu nível mais elevado desde há 10 anos, resultando em maus empréstimos. O total do crédito mal parado a este nível vale já cerca de 2,5-3,00% dos activos bancários. Há já analistas que estimam que os grandes bancos têm cerca de USD 25 mil milhões em empréstimos de cobrança difícil, um valor que não para de aumentar. Contudo, o problema é maior para os bancos públicos, que constituem 75% do sistema bancário. Os empréstimos tóxicos estão concentrados em sectores como o da energia, aviação, infra-estruturas, imobiliário e telecomunicações. O elemento comum é ambas as indústrias são caracterizadas pelo envolvimento do governo e ambas sofreram tanto com a política errática do governo como com a interferência dos grossistas. Nos setores da electricidade e dos serviços públicos estatais, acumularam-se perdas de USD 14 mil milhões, em parte porque as baixas tabelas dos serviços praticadas e impostas pelo governo são ditadas por considerações políticas e não cobrem o custo de produção.

Duas das maiores companhias aéreas indianas, uma, de propriedade estatal, Air India, e a companhia aérea privada Kingfisher, deparam-se agora com muitas dificuldades, por uma lado para pagar aos funcionários e por outro para pagar os grandes encargos da dívida.

O governo indiano já decidiu recapitalizar os bancos estatais para garantir a sua posição de capital. Neste processo, o défice orçamental e as necessidades de financiamento do governo estão sob uma pressão crescente.

O Síndrome de Down de Victor Kiam (…).

Comentadores estrangeiros vêm o crescimento indiano como sendo conduzido por dezenas ou centenas de milhões de empresários individuais e não pelo Estado como na ocorre na China. Eles elogiam a exportação de serviços na Índia, ao invés de se recorrer ao fabrico de produtos baratos. Os estrangeiros analogamente admiram a capacidade de inovação empresarial na Índia, principalmente e em especial nos “inovadores frugais ” que introduziram o mini automóvel Tata Nano (um modelo de carro pequeno e barato, com um custo à volta  de USD 2.500,00) e, computadores tablet de baixo custo.

Contudo, a realidade é mais matizada. Este país emergente continua a ser dominado por empresas de propriedade estatal e pelas grandes empresas oligárquicas, que existiam já antes da liberalização económica. Há estudos que consideram que a economia continua a ser dominada por um oligopólio de empresas já estabelecidas, que mantiveram ou aumentaram mesmo as suas posições dominantes.

As exportações indianas são diversificadas, tanto geograficamente como em termos dos produtos que vende. Mas, as empresas orientadas para a exportação são afectadas pelas fragilidades económicas dos seus principais parceiros comerciais. Com poucas excepções, eles não se deslocaram na cadeia de produção à escala global do valor, continuando a fornecer a nova versão economia de mão-de-obra barata. A inovação continua a ser diminuta em relação aos líderes do mercado internacional.

As empresas orientadas para a exportação enfrentam pesados desafios com o aumento dos custos do trabalho ou decorrentes da escassez de trabalhadores qualificados. Nalgumas áreas, as pressões de custos estão a forçar essas empresas a mudarem-se para o exterior, invertendo assim uma das tendências que sustentaram o seu próprio crescimento.

Empresas, tanto nacionais como internacionais, estão limitadas pelas faltas de infra-estruturas neste país banhado pelo Oceano Índico. O aumento das estruturas de custos deve-se ao facto de existir uma necessidade de investimento por parte das empresas em geradores de energia (para se defenderem do fornecimento inconsistente de energia eléctrica), em formação na força de trabalho (para ultrapassar a escassez de mão-de-obra instruída) e, até mesmo em transporte e nas infra-estruturas de residências para os seus trabalhadores. As empresas nacionais continuam também a debaterem-se com outros ditames como, uma regulamentação governamental inconsistente e frequentemente disfuncional e uma concorrência desenfreada.

Todavia, a indústria aérea fornece um caso em apreço, dado que as fraquezas da Air India (a transportadora nacional de propriedade estatal), permitiram  que uma série de operadoras privadas prosperassem – entre elas, Jet Airways, Kingfisher, Spice Jet, etc. Nos últimos anos, o governo recapitalizou a Air India e acrescentou novos aviões, competindo vigorosamente para recuperar a parte de mercado perdida. A combinação de um concorrente apoiado pelo governo, os preços dos combustíveis mais elevados e uma má gestão contribuíram para que esta enfrente sérias dificuldades. Como já mencionamos, uma transportadora aérea privada – Kingfisher – encontra-se a lutar para saldar os ordenados dos seus funcionários, o que já a tem forçado a cortar voos. Na ausência de uma substancial nova injecção de capital, o futuro de Kingfisher é incerto. Poucas companhias de aviação, se é que neste momento se pode mencionar alguma delas que seja rentável, os accionistas, os credores e o governo estão em risco de perder milhares de milhões de dólares.

Dificuldades internas, em parte, têm incentivado algumas empresas a expandirem-se internacionalmente – Tata Motors comprou a Jaguar Land Rover; Tata Steel comprou Corus; Mittal Steel comprou Arcelor; Bharti Airtel comprou Zain África. O colonialismo inverso tem incentivado um patriotismo chauvinista. Mas a lógica comercial de algumas das operações é altamente questionável. As aquisições financiadas pela grande quantidade de dívida têm financeiramente proporcionado pobres resultados. As suas perspectivas de longo prazo são incertas.

O Presidente Executivo de Tata pessoalmente gosta muito dos Jaguars, o que relembra o famoso caso de Victor Kiam que gostava tanto de lâminas de barbear Remington que até comprou a empresa.

Persistem problemas de governação em muitas companhias indianas, e exemplo disso é bem evidenciado pela fraude em Hyderabad, situada em Satyam numa época em que era uma das cinco melhores empresas de TI em Outsourcing na India.

(continua)

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Para ler a Parte III deste texto, vá a:

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