DOIS NOVÍSSIMOS POETAS BRASILEIROS* – por Simonetta Masin

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*Repetimos a edição deste post, publicado dia 24, devido à introdução de rectificações indispensáveis.

Simonetta Masin, (doutorada em Língua e Literaturas Portuguesa e Brasileira pela Universidade de Pádua), apresenta-nos dois novíssimos poetas brasileiros – Rodrigo de Souza Leão e Ana Tereza Salek.

Rodrigo de Souza Leão

Escritor, jornalista e músico, Rodrigo [Antonio] de Souza Leão nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 04 de novembro de 1965. Publicou dez e-books de poesia: 25Imagem1 Tábuas, No Litoral do Tempo, Síndrome, Impressões sob Pressão Alta, Na Vesícula do Rock, Miragens Póstumas, Meu Primeiro Livro que é o Segundo, Uma temporada nas Têmporas, O Bem e o Mal Divinos, Suorpicious Mind e Omar. Seus poemas foram publicados nas revistas Coyote, Et Cetera, Poesia Sempre, El Piez Naufrago (México), Oroboro. Premiado com o quarto lugar no Concurso de Contos José Cândido de Carvalho, em 2002. Participou, como músico, do CD Melopéia, de Glauco Mattoso. Consta da antologia Na Virada do Século — Poesia de Invenção no Brasil, organizada por Claudio Daniel e Frederico Barbosa (São Paulo: Editora Landy, 2002). Publicou Há Flores na Pele (João Pessoa: Editora Trema, 2001) e Todos os Cachorros são Azuis (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2008), com incentivo do Programa Petrobrás Cultural – Edição 2006/2007. O livro foi um dos 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom, edição 2009. Em 2008, publicou também a plaquete Desequilivro, de poesia visual, em parceria com Paulo de Toledo. Em 2009 foi a vez de Caga-Regras (Pará de Minas: Virtual Books). Fundador e coeditor da Zunái — Revista de Poesia & Debates [www.revistazunai.com]. Criou o site Caox [fora do ar] e veiculou o e-zine Balacobaco [http://balacobaco08.vilabol.uol.com.br], com entrevistas com mais de 150 poetas e escritores. Suas entrevistas também foram divulgadas em vários sites e muitas delas estão na Germina — Revista de Literatura e Arte [www.germinaliteratura.com.br], da qual foi um dos primeiros e mais assíduos colaboradores. Editou o blogue Lowcura [http://lowcura.blogspot.com], que participou da mostra “Blooks — Tribos & Letras na Rede” (coordenação de Heloísa Buarque de Holanda e curadoria de Bruna Beber e Osmar Salomão, 2007). Sob o pseudônimo de Romina Conti, foi uma das Escritoras Suicidas [www.escritorassuicidas.com.br]. Escreveu artigos e resenhas para os jornais “O Globo” e “Jornal do Brasil”. Morreu no Rio de Janeiro, em 02 de julho de 2009. Deixou, cheios de saudade e orgulho, os pais Antonio Alberto e Maria Sylvia; os irmãos Maria Dulce e Bruno; a sobrinha Marina, a Tia Rita, muitos amigos, que ele juntou com sua atenção, afeto e generosidade. E vários livros inacabados.

meu pai que não está na foto

comi distância nas pálpebras

fechadas de minha razão

pude sentir a minha Loucura

sempre sorrindo de dentadura

oro aos sãos que me querem

tateando o Horizonte dentro

daquela noite eterna

em que me deitei em mim

pra sempre quis estrelas

quem sabe irei ser um dia

aquela que adiante guiará

meu pai no mar da poesia

toda a vida em um segundo

morrendo a cada

dez minutos uma vez

o círculo se fecha

e cada vez mais

o que vai indo vai

pra nunca mais

o que fica é o futuro

uma criança na foto

por que nenhuma

mãe guardou

nossas fotos

quando adultos

tributo

não tem uma teoria que explique o que sinto

não tem ninguém que nunca não mentiu

alguém pode vir aqui e escolher entre os

poemas errados que escrevi nesses últimos

vinte quatro anos: é um número gay power

diria que não sou gay, mas não é isso que

pensam. pensem o que quiserem os pensadores.

o pensamento foi feito para ser livre como

este verso. aliás, que versinho sem vergonha.

nunca mais escrevi alguma coisa que preste.

acho que estou condenado a isso; melhor

seria me calar ou manter minha abstinência

poética. é que a vida tem tão pouca poesia

para tanto poeta que insisto nessa linha de

força. como se só restasse isso a fazer.

ANA TEREZA SALEK

Ana Tereza Selek naceu no Rio de Janeiro, em 1988. Publicou o livro de poemas Dezembro, 2010.

o estranho

Desde que

Nunca tive outra suspeita

Tem alguém no telhado

Que me espreita.

Desde que nasci, nunca fui

Ao contrário; sempre quis ser.

Desde que eu fui,

Quando vim a ser

Fabriquei saudades,

Desculpas para esse choro.

Desde que nasci nunca duvidei:

Tem alguém no telhado, eu sei.

menino

Se algum dia eu te ofender

Eu chorarei.

E respeitarei os mais próximos

E respetarei ainda os mais próximos.

Se algum dia tu morreres, e irás

Colherei algumas flores

Espetarei meus rins com acupuntura

Vencerei tantos medos

Pousarei uns bons ramos sobre teu caixão

E cantarei a nossa música.

E se algum dia eu morrer, e irei

Saberei se há a paz

E não te esperarei.

Não precisamos ficar juntos para sempre

– Já estamos tão juntos, sempre…

Para os intrusos de plantão

Isso não é comodismo

Isso é uma orgulhosa construção

Que sente orgulho, ela própria

Não eu.

Eu nunca.

hand made

Minhas mãos idiotas

Envelhecem antes,

Sempre antes

Do anoitecer.

Vejo-as, sem sentido

Idiotas e velhas

Sob a luz.

A sombra do corpo

Cobre as mãos

Sempre encolhidas

Sonhando no peito

E os sonhos são

Unicórnios desgraçados

Que não olham

Pro céu.

Desenho centauros;

Metade cavalo, metade

Pedra.

A metade humana não.

Sou perplexo de minhas

Mãos.

soneto do dentre de prata

Quando eu nasci ganhei uma caveira

De anel dourado, esqueleto abissal

Em meio aos dentes da musa ceifeira,

Tinha um de prata, um dente adicional…

E esse dente coberto de poeira,

É meu amuleto, minha espinha dorsal

É hemistíquio da minha vida inteira!

Taxa de metabolismo basal!

Meu amuleto é o meu melhor amigo

Nunca irei me desfazer desse artigo

Que te traz o azar e a mim traz a sorte…

Minha família se quiser recuse;

Que eu quero que meu esqueleto use

O dente de prata depois da morte!

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