(Mostrando-se inocente e apontando os livros) Estão proibidos?
1.º Polícia
– Estão. Interessam-lhe?
Rapaz
– Se a polícia os apreendem é porque o Governo entendeu que a sua leitura não seria conveniente e, eu, não tenho outra hipótese senão respeitar o que superiormente se decide.
1.º Polícia
– (Olha para o Rapaz. Um tempo. Sorri. Depois, apontando para o 2.º Polícia) Faz uma declaração em como foi entregue a revista a este senhor.
O 2.º Polícia dirige-se a uma pequena secretária onde se encontra uma máquina de escrever. Procura o respectivo papel selado e começa a executar o que lhe foi solicitado. Entretanto, entra o Chefe, que recebe do 1.º Polícia a documentação apreendida. Pega na documentação e olha para o Rapaz.
2.º Polícia
– (Que acaba de tirar o papel da máquina de escrever, dirige-se ao Rapaz) Assine a declaração, se faz favor.
Rapaz
– (Lê a declaração) E a minha revista onde está?
O 4.º Polícia levanta-se e entrega-lhe a revista. O Rapaz assina e devolve a declaração.
Durante o interrogatório, a Chefe andará em frente do Rapaz, fazendo um semi-círculo; o 1.º Polícia manter-se-á em frente do Rapaz, atento as todas as perguntas e respostas; o 3.º Polícia sentado na sua secretária, na mesma atitude e à direita do Rapaz; o 4.º Polícia ficará de pé, em frente da sua secretária, atrás do interrogado. O Rapaz procurará olhar sempre a cara do Chefe.
Chefe
– (Olhando o Rapaz) Qual é a sua ideologia política?
Rapaz
– Não tenho.
Chefe
– Mas o Sr., aqui (mostra uma das cartas), ao dizer «…estando o nosso país entregue a um regime fascista…» leva-nos a concluir o contrário… Não gosta, portanto, do fascismo!
Rapaz
– Odeio o fascismo!
Chefe
– Porquê?
Rapaz
– Basta recordar a Itália de Mussolini para eu não gostar do fascismo e…
Chefe
– (Interrompendo o Rapaz e cinicamente) E não gosta de todos os sistemas cuja nomenclatura termina em –ismo?
Rapaz
– Se o Sr. for mais objectivo, pode ser que lhe possa responder. É que há tantos nomes terminados em –ismo que eu não sei aonde quer chegar.
Chefe
– Sim senhor. Já vi que não gosta de fascismo…
Rapaz
– Não, não gosto!
Chefe
– Nazismo…
Rapaz
– O que disse àcerca de Itália serve para a Alemanha de Hitler.
Chefe
– Tem razão. Co – mu – nis – mo…
Rapaz
– (Levantando a mão direita rapidamente) Um momento!, não sei nada de comunismo, (baixa a mão) nem sequer posso comprar livros no nosso país para o estudar mas, se o Sr.me puder esclarecer, eu agradeço-lhe muito.
Há um momento de silêncio sem que alguém se mexa. Suspense, reforçado por música adequada.
O Chefe recomeça a andar e, antes de completar o habitual semi-círculo:
Chefe
– Que pretende afinal o Sr.?
Rapaz
– Ganhar mais do que ganho, por exemplo.
Chefe
– Está no seu direito. Mas é só isso que pretende?
Rapaz
– Gostaria de ver elevar o nível de vida, atingindo todas as camadas sociais de modo a que todos tivessem as mesmas possibilidades de triunfar.
Chefe
– São boas intenções. Poderemos então chamar-lhe socialista!
Rapaz
– Eu tenho um bocado de receio de aceitar essa classificação, na medida em que os senhores consideram o socialismo subversivo.
Chefe
– Então, o que é você politicamente?
Rapaz
– Sou democrático.
Chefe
– (Rápido) Democrático quê? Como sabe, democracias há muitas.
Rapaz
– Sou democrático republicano.
Chefe
– Estamos na mesma. Nós, por exemplo, vivemos numa república unitária e corporativista.
Rapaz
– (Fingindo não perceber) Corporativismo vem de corpo ¾ tudo metido no mesmo corpo obrigatoriamente. E cooperativismo, todos a operarem em colaboração. Eu gosto de cooperativismo.
Chefe
– Então gosta do nosso regime, porque corporativismo é uma forma superior de cooperativismo.
Rapaz
– Ai é?!… (irónico) Então está bem.
Chefe
– Conhece bem a nossa Constituição?
Rapaz
– Tive que a estudar no liceu.
Chefe
– E acha que o nosso regime a segue?
Rapaz
– Se foi este regime que a fez, naturalmente tem interesse em a cumprir. Não acha que seja assim?
O Chefe pára de andar. Aproxima-se um pouco mais do Rapaz. Olha os papéis que tem na mão.
Chefe
– Sabe que está muito mal informado sobre a greve dos pedreiros? (Olhando para os outros polícias) Se assim lhe podemos chamar…
Rapaz
– É possível. Os jornais nem sequer dela falaram.
Chefe
– Este seu amigo poeta (ri), quem é?
Rapaz
– É um amigo meu, como o Sr. bem disse.
Chefe
– Está bem, mas que faz ele?
Rapaz
– É funcionário da alfândega, como julgo que os senhores bem sabem.
Chefe
– Neste poema que lhe dedica, se se pode chamar a esta merda um poema!, fala muito de liberdade. (Para os outros polícias, que riem) Como se um estúpido destes soubesse o que é a liberdade. (Para o Rapaz) Que habilitações tem ele?
Rapaz
– Não sei ao certo, mas julgo que tem a instrução primária.
Chefe
– E o senhor?
Rapaz
– Tenho o curso secundário incompleto.
Chefe
– Veja a diferença de cultura que há entre vocês! Admira-me que possa ser amigo de um palerma destes.
Pelos vistos, este indivíduo tem lido muita propaganda do estrangeiro, que não compreendeu, e anda a querer doutriná-lo a si…
Rapaz
– (Rápido) Devo dizer que não me sinto nada influenciado!
Chefe
– Se estas pessoas, antes de falarem, pensassem que a liberdade termina onde a dos outros começa! Não lhe parece que seja assim?
Rapaz
– É a opinião do Sr.?!
Chefe
– (Mostrando-se admirado) Não concorda?!
Rapaz
– (Devagar, muito calmo) De facto, para que eu seja completamente livre, não tenho o direito de fazer com que o Sr. deixe de o ser.
Chefe
– (Como quem fala para um grande auditório) Pois claro! No nosso país, os operários e todos os outros empregados discutem, durante as horas de serviço, o modo como jogaram as suas equipas preferidas, vão dez vezes à casa de banho para fumar, etc. …, no estrangeiro, durante as horas de trabalho, ninguém fala nem perde tempo na casa de banho por que, no fim-de-semana ou do mês, vem tudo descontado na folha de férias. E dizem ainda que no nosso país não há liberdade! Nesses países, da liberdade, como lhe chamam, sujeitam-se a coisas que nas suas terras têm vergonha de fazer, desde limpar retretes, etc. …
Rapaz
– (Interrompendo) Mas não passam fome, pelo menos!