A REPÚBLICA TEVE APOIO POPULAR? – por Carlos Loures

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Há anos atrás, tendo eu dito num artigo que a República  fora proclamada por gozar de um amplo apoio popular, um leitor contestou a afirmação,  dizendo que tinha sido uma elite de burgueses – licenciados, comerciantes, intelectuais, artistas, estudantes, que tinha derrubado a Monarquia e proclamado a República. Sem estatísticas fidedignas, torna-se difícil apoiar ou pôr em causa uma e outra tese. Os elementos disponíveis podem facilmente ser manipulados para apoiar uma ou outra conclusão. Por exemplo, as fotografias do acto da proclamação. – quem queira demonstrar um amplo apoio, mostra a fotografia (acima)  tirada do telhado de um prédio do  Largo do Pelourinho , que mostra uma apreciável aglomeração. Quem pretenda demonstrar o contrário, chama a atenção para o pormenor, na foto oficial do içar da bandeira republicana (abaixo), onde se vê o cotovelo da Rua de São Julião, praticamente deserto.

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Mas atente-se na situação – desde o dia 2, um Domingo, a cidade estava sob fogo cruzado da artilharia naval e das peças das posições de sublevados e de fiéis àImagem3 Monarquia. Ao tiroteio de armas automáticas e de metralhadoras e canhões, somavam-se as explosões esporádicas de granadas de fabrico artesanal. Os lisboetas estariam, na sua maior parte, metidos em casa. Não havia rádio, nem televisão. Os telefones eram relativamente poucos. Li relatos de homens que, minados pela curiosidade, se afoitavam a sair de casa, com a mulher e os filhos em lágrimas, abraçando-os em cenas lancinantes – iam apenas, cosendo-se com as paredes,  tentar comprar o jornal, Talvez O Século, o de maior circulação.  Jacinto Baptista publicou, em edição da Seara Nova (1966), um interessante trabalho, Um jornal na Revolução – “O Mundo” de 5 de Outubro de 1910. Se nos ativéssemos à opinião que Imagem4transparece na maioria dos artigos e reportagens, aceitaríamos a tese do apoio amplo. Mas o matutino O Mundo  e o vespertino  A Capital eram jornais republicanos… E o jornalismo em certas situações mistura o relato objectivo com a defesa das ideias do jornal, quando não mesmo as do jornalista.  E mesmo cem anos depois, quem escreve e quem lê não consegue ser cem por cento isento.

 As duas principais cidades do País eram maioritariamente republicanas e esse factor foi decisivo. Num país com 80% de analfabetos, as elites culturais eram também maioritariamente pelo fim da Monarquia. Mas, naturalmente, havia um número elevado de monárquicos mesmo entre os que contestavam a situação existente. Desde as comemorações camonianas de 1880, o ideal republicano vinha-se impondo entre grande parte da população . A cedência perante o ultimato britânico de 1890 foi outro rude golpe no prestígio da instituição monárquica. E para além destes factos, o comportamento displicente de D. Carlos, foi um dos elementos que mais contribuiu para a queda do regime.Muitos monárquicos condenavam a vida de dissipação que o rei levava – amantes, prostitutas, filhos bastardos, gastos ostensivos e sumptuários. Mas tudo isso lhe seria perdoado se a sua conduta como chefe de Estado fosse aceitável. Todos sabemos como as coisas acabaram – com um Regicídio (em que morreu também o príncipe herdeiro) e com a subida ao trono de um jovem que não fora preparado para reinar. Há um livro muito interessante, o de Joaquim Leitão, «Diário dos Vencidos» que nos proporciona, a nós que quase só conhecemos a perspectiva republicana, uma visão da proclamação da República a partir do campo monárquico.

Cem anos depois da queda de um regime anquilosado, antidemocrático por natureza, muitos dos males que afligiam a Nação, persistem – a qualidade da classe dirigente, a corrupção, a sistemática alienação da independência nacional, faz com que muitos portugueses sonhem com uma IV República. Será que esse desiderato é compartilhado por uma ampla maioria? Gostaria de acreditar que sim. O número de votos obtidos pelos partidos neo-liberais, mentirosos, cheios de gente corrupta, leva-me a crer que as maiorias preferem optar pelo que sabem ser mau do que apostar na utopia, Mas para que esta aberrante tendência se verifique a cada votação não é de ignorar o papel da comunicação social, fomentando o masoquismoe e a atracção pelo abismo.

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