A VERDADEIRA LIÇÃO DA GRANDE DEPRESSÃO: A POLÍTICA ORÇAMENTAL FUNCIONA. Por MARSHALL AUERBACK

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

A verdadeira lição da Grande Depressão: A política orçamental funciona

Novos ataques às políticas do New Deal de FDR alimentados por ideologias velhas – e desacreditadas

 

Marshall Auerback

Senior Fellow at the Roosevelt Institute.

30 de Agosto de 2012

http://www.rooseveltinstitute.org/new-roosevelt/real-lesson-great-depression-fiscal-policy-works

SEGUNDA PARTE
(continuação)

A Estratégia de FDR sobre o Emprego e sobre os Salários Funcionou

Tudo isto mudou sob FDR. A chave para avaliar os resultados da política de Roosevelt no combate à depressão está no tratamento estatístico de muitos milhões de desempregados envolvidos nos seus programas de workfare massivos. O governo empregou cerca de 60 por cento dos desempregados em obras públicas e em projectos de conservação em que plantaram cerca de um milhar de milhões de árvores, salvou o grou-cantor da América do Norte, modernizou-se a América rural e construíram-se diversos projectos tais como a Cathedral of Learning em Pittsburgh, o Montana State Capitol, muito sobre as margens do algo em Chicago, o New York’s Lincoln Tunnel e o complexo de Triborough Bridge, a Tennessee Valley Authority e os porta-aviões Enterprise e Yorktown.

Também se construíram ou se renovaram 2.500 hospitais, 45.000 escolas, 13.000 parques e jardins infantis, 7.800 pontes, 700 mil milhas de estradas e mil aeródromos. E com isto empregavam-se 50.000 professores, reconstruiu-se na totalidade o sistema escolar rural do país inteiro e contrataram-se 3.000 escritores, músicos, escultores e pintores, incluindo Willem de Kooning e Jackson Pollock. Muita coisa mesmo para que se possa ter e manter a ideia de que os empregos públicos não são “verdadeiros postos de trabalho”, como ouvimos constantemente dizer aos críticos do New Deal!

As razões para as discrepâncias nos dados sobre o desemprego que historicamente têm surgido fora do New Deal devem-se a que o método de amostragem actual nas estimativas para o desemprego pelo BLS só foi desenvolvido depois de 1940[1]. Se estes americanos a trabalhar nestes programas são considerados desempregados, o certo é que a administração Roosevelt reduziu o desemprego de 25 por cento em 1933 para 9, 6% por cento em 1936, e depois para 13 por cento em 1938 (devido em grande parte a uma inversão do activismo orçamental que tinha sido a característica de FDR no primeiro mandato), esta taxa voltou a cair para menos de um por cento até ao momento em que os EUA mergulharam na Segunda Guerra Mundial, no final de 1941.

Na verdade, uma vez que a Grande Depressão atingiu o fundo no início de 1933, a economia dos EUA embarcou em quatro anos de expansão que constituíram o maior boom cíclico na história económica dos EUA. Durante quatro anos, o PIB real cresceu a uma taxa de 12% e o PIB nominal cresceu a uma taxa de 14%. Houve, depois, uma outra depressão menor e mais curta em 1937, em grande parte causada pela nova contracção orçamental (e pelas maiores exigências quanto a margens feitas pelo Federal Reserve).

Esta recaída económica levou ao equívoco de que o banco central estava a puxar uma corda para a contenção em toda a década de 1930, até que o estímulo fiscal gigante do esforço de guerra finalmente trouxe a economia para fora da depressão. Isso é incorrecto. A maioria dos relatos da Grande Depressão subestimam o efeito das medidas do New Deal quanto à criação de empregos, porque eles não mostram como é que grande parte do declínio no emprego oficial era atribuível ao efeito multiplicador dos gastos na criação de emprego directo. Além disso, a categoria “trabalhos públicos de ajuda à retoma económica” não inclui o emprego criado nas obras públicas financiadas por Public Works Administration (PWA), nem o efeito multiplicador dos gastos feitos por PWA. Os números contam a história indirectamente, através da trajectória da taxa de desemprego oficial seguida – fortemente decrescente nos períodos em que os gastos com os trabalhos públicos foram altos e ou decrescentes mas muito mais lentamente ou crescente mesmo nos períodos em que os gastos públicos para a retoma económica foram cortados. Na verdade, até ao final de 1934, mais de 20 milhões de americanos (um em cada seis!) estavam ater empregos ou assistência pública de uma forma ou de outra a partir do “Welfare State”[2].

Assim, 9, 6% do desemprego alcançados no final de 1936 era ainda um valor muito alto. Mas é difícil imaginar os Democratas estarem em perigo político aquando das eleições intercalares, ou testemunhar o estado actual abismal da popularidade de Obama com a hipótese de a Administração de agora ter podido reduzir o desemprego por dois terços num mandato, como o fez FDR, na base de medidas honestas sobre os níveis de desemprego. Basta dizer que, a redução do desemprego foi o foco único da Administração Roosevelt; pelo contrário, hoje temos “a nova normalidade”, com efeito, um falso argumento intelectual para justificar porque não se pode gerar um maior crescimento do volume de emprego. E isto é um testamento de uma falência política.

Em referência à crítica da política de “altos salários” de FDR que é agora feita por Cooley e Ohanian, vale a pena notar que a “inflação”, salarial que eles condenam era na realidade um produto de um ambiente deflacionário em que o nível geral de preços caia mais rapidamente do que o nível do salário nominal. Durante o início da Grande Depressão, o output produzido entrou em colapso em face da falta de acção orçamental do governo americano e do Banco Central com as subidas das taxas de juro. Isto teve o resultado estranho de gerar um aumento salarial real contra-cíclico, que na verdade não era nada mais do que um produto resultante da natureza depressiva da economia, em que os preços globais foram caindo mais rapidamente do que os salários[3].

Sobrepondo os dados salariais com a redução efectiva de desemprego entre 1933 até ao final de 1936, torna-se difícil mostrar um caso empírico em que as melhorias salariais das políticas praticadas por FDR durante a Grande Depressão fossem prejudiciais ao crescimento económico e ao aumento do emprego. Mesmo que alguns sectores pudessem ser prejudicados (e que não é comprovada por Cooley e Ohanian) os factos sugerem realmente que os aumentos dos salários reais estiveram na verdade associados com o aumento do emprego global.

(continua)

[1] Para mais detalhes ver Marshall Auerback, “Time For a New “New Deal”, February 1, 2009. Disponível em http://www.ritholtz.com/blog/2009/02/time-for-a-new-%E2%80%9Cnew-deal%E2%80%9D/

[2] NT. Na mesma linha de raciocínio veja-se de Krugman, Acabem com esta Crise já, Editorial Presença.

[3] Para mais informações ver http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=7261 (Bill Mitchell – billy blog: Search for:Modern Monetary Theory … macroeconomic reality).

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Para ler a Primeira Parte deste trabalho de Marshall Auerback, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/10/06/a-verdadeira-licao-da-grande-depressao-a-politica-orcamental-funciona-por-marshall-auerback/

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