A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 9– por Sérgio Madeira

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Nos capítulos anteriores – Em Abril de 2009, por conselho do seu cardiologista, António Amaral está de férias no Porto Santo.  Recuamos  até 1972. No distrito de Tete, Moçambique, tem lugar uma operação militar contra uma aldeia que, se pensa abrigar um líder da guerrilha. Enquanto António recorda os dias anteriores ao mórbido achado, as tropas especiais desencadeiam um ataque a Xuvalu, o alvo da operação. No hotel, ao jantar, António e Cecília, sua mulher, são cumprimentados pelo pianista, que se lhes dirige. Em Xuvalu o massacre da população está em curso..

Nono capítulo

Porto Santo, manhã de segunda-feira, 13 de Abril

Estava-se no fim da segunda semana de Abril e, na ilha quase não havia turistas, talvez devido à crise económica. Um ou outro casal de ingleses ou de alemães que, reformados,  passavam o princípio da Primavera neste clima amavelmente africano,  quase eternamente primaveril, bem  longe do frio, das chuvas,  e tormentas dos seus países natais.  Houvera também alguns visitantes continentais que, de férias da Páscoa na Madeira, tinham vindo passar um dia ao Porto Santo.

Porém,  agora a pequena ilha que nos meses de Verão atingia uma população que rondava as trinta mil pessoas,  quase estava exclusivamente reduzida aos seus cinco mil habitantes nativos, pois nem as vagas de madeirenses que aqui afluíam nos fins-de-semana dos meses de Verão, vinham agora. Porto Santo era, nestes meses, apenas um conjunto de pequenas aldeias abandonadas, perdidas no meio do oceano. Muitos dos restaurantes, os bares,  as discotecas, as agências turísticas, as lojas, estavam fechadas. Os jornais do Continente chegavam com grande atraso. Os diários do Funchal, insuportavelmente controlados pela presidência da Região Autónoma, embora chegassem antes, eram intragáveis para António. Neste campo da informação, valia-lhe a televisão por cabo, o portátil e a Internet. A internet foi aliás de uma grande utilidade. Todas a manhãs, com Cecília ainda dormindo, comendo uma bolacha para quebrar o jejum. Vendo o dia nascer junto da grande janela do quarto, lia as edições on line dos jornais portugueses  e de alguns estrangeiros. A foto de Berlusconi com um lenço sobre os olhos nos funerais das vítimas de L’Aquila aparecia na primeira página de quase todos – a gaffe de dois dias antes tinha de ser compensada com lágrimas e com a afirmação de que as suas casas estavam disponíveis para receber desalojados. A estúpida gaffe do campismo era agora convertida em vantagem.

– Um artista – disse António.

– Quem? – Cecília acordara.

Duas horas depois, no passeio pelo areal, lembrando-se das recomendações de Alfredo, teve o cuidado de não acelerar muito o passo. A areia estava compacta e endurecida pela água, lisa como uma pista de tartan. Andado o primeiro quilómetro, descalçou as sapatilhas e sentiu com agrado a textura da areia sob os pés e deixou de fugir das ondas. Soube-lhe bem a frescura da água.

Durante o percurso, não se cruzou com ninguém, o que muito lhe agradou. O clima ameno (18 graus centígrados às nove da manhã), o isolamento, a quietude, a temperatura suportavelmente fria da água que lhe ia molhando os pés, tudo aquilo tinha alguma coisa a ver com o seu paradigma de paraíso. Nem moscas ou mosquitos havia. Seis quilómetros de marcha para o primeiro dia não estava nada mal. Por isso,  junto dos tais apartamentos Luamar,  resolveu inverter a marcha e regressar ao hotel. «Amanhã»,  pensou, «irei um pouco mais longe». À sua aproximação, um grande bando de gaivotas levantou voo deixando na areia molhada a tatuagem de múltiplos pequenos tridentes.  Chegara agora a um labirinto de pequenas rochas, expostas pela maré baixa, interrompendo a pista dura e compactada do extenso areal e obrigando-o a escolher passagens, a contornar,  chapinhando nas bolsas de água. Podia, caso não se quisesse molhar,  ter subido a praia uma escassa dezena de metros e continuado a marcha pela areia seca, mas sentia um prazer infantil em mergulhar os pés na água que a exposição ao sol da manhã amornara. Na próxima curva do areal veria já o almejado Pôr-do-Sol. Salivou quando antegozou o gosto do café.

O extenso areal parecia ser coisa da sua exclusiva propriedade, apenas compartilhada com bandos de gaivotas e de andorinhas-do-mar que levantavam voo à sua passagem e logo indo pousar uns metros mais adiante. «O paraíso», voltou António a pensar. A poucas centenas de metros da praia passou a grande silhueta branca do Lobo Marinho, o ferryboat que fazia a ligação regular entre Porto Santo e o Funchal. Passados escassos minutos, a deslocação da água provocada pela passagem do grande barco chegou ao areal sob a forma de uma vaga que molhou António quase até aos joelhos – «um pequeno tsunami», pensou. A maré estava um pouco mais cheia do que na véspera e, por isso, para poder caminhar sobre a areia húmida e  mais dura e compactada, mergulhava com frequência os pés nas ondas que vinham docemente morrer junto de si. Com a chaminé do restaurante da Ponta da Calheta e com o vizinho Ilhéu da Cal,  de perfil dinossáurico,  já à vista, entre uns rochedos,  o paraíso fora brusca e dramaticamente invadido pelo inferno, pois deu-se o macabro achado. António quase tropeçara no corpo de um homem.

Os olhos abertos e sem brilho, as pálpebras levemente descaídas, conferiam ao rosto do morto uma certa expressão de abandono, de indiferença… O homem estavaobviamente morto,  sangrando da testa e do peito e aparentando mesmo já alguma rigidez,  movendo-se com o ar inteiriçado e grotesco de uma marioneta ao sabor das ondas fracas da maré vazante,  que ora o cobriam de água,  ora o abandonavam em seguida sobre seu leito de areia. Uma dança macabra.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO – O INFERNO DE XUVALU

 

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