CATARINA EUFÉMIA – Símbolo da Resistência da mulher portuguesa – por Carlos Loures

0001 (2)O regime salazarista não se cansava de elogiar, de  homenagear, as mulheres portuguesas, as mães portuguesas. Na realidade, as mulheres eram muitas vezes a «voz da sensatez», mães e esposas que desmobilizavam da actividade política filhos e maridos. Era o que se dizia, mas não passava de uma falácia – as mulheres, menos obrigadas por tradição, a assumir atitudes corajosas, apenas verbalizavam o que a maioria pensava – só desmobilizavam os filhos e maridos que queriam ser convencidos a não lutar.

Catarina Eufémia foi transformada em símbolo, glorificada, cantada em muitos poemas, imortalizada por  Zeca Afonso… Catarina Eufémia é, sem dúvida, um símbolo da luta contra a ditadura. Não que alguma vez o quisesse ser. Segundo testemunhos de quem a conheceu, Catarina, embora analfabeta, era uma jovem inteligente e sensata. Decorridos quase sessenta anos, torna-se difícil libertar a realidade objectiva da carga mitológica – separar a ceifeira, a camponesa, a mulher, do símbolo hagiográfico. Vamos tentar.

No dia 19 de Maio de 1954, no Monte do Olival, Baleizão, concelho de Beja, uma mulher foi assassinada a tiro por um tenente da Guarda Nacional Republicana. Nascera em Baleizão 26 anos antes, em 13 de Fevereiro de 1928, chamava-se Catarina Efigénia Sabino Eufémia. Tinha três filhos, um deles com oito meses e que vinha ao seu colo quando foi morta. Participava numa greve de ceifeiras assalariadas que protestavam contra a jorna paga pelo proprietário da seara. Era a altura de ceifar o trigo e Catarina encabeçava o grupo de catorze camponesas que pretendiam obter um aumento diário de dois escudos. Um protesto daquela natureza era coisa nunca vista, um atentado à “ordem natural das coisas”, – se já as ceifeiras se recusavam a trabalhar aceitando a jorna fixada pelo agrário. «onde é que isto irá parar!» –  e o feitor foi a Beja pedir a intervenção da guarda.
Quando a força policial chegou, houve uma breve  troca de palavras com o tenente Carrajola. Este perguntou o que pretendiam e Catarina segundo se diz, terá respondido que só queriam pão e trabalho. Carrajola deu-lhe uma violenta bofetada que a derrubou. Catarina terá dito: «Já agora, mate-me» e a pistola-metralhadora do tenente disparou três balas que destruiram vértebras da ceifeira, causando-lhe a morte.

Segundo o relatório da autópsia, Catarina “foi atingida por três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima que era de estatura mediana (1,65 m), de cor branco-marmórea, de cabelos pretos, olhos castanhos, de sistema muscular pouco desenvolvido”.

No Diário do Alentejo de 21 de Maio de 1954, a notícia rezava assim: «Anteontem, numa questão entre trabalhadores rurais, ocorrida numa propriedade agrícola de Baleizão, e para que foi pedida a intervenção da G.N.R. de Beja, foi atingida a tiro Catarina Efigénia Sabino, de 28 anos, casada com António do Carmo, cantoneiro em Quintos. Conduzida ao hospital de Beja, chegou ali já cadáver. A morte foi provocada pela pistola-metralhadora do Sr. Tenente Carrajola, que comandava a força da G.N.R. No momento em que foi atingida, a infeliz mulher tinha ao colo um filhinho que ficou ferido, em resultado da queda. A Catarina Efigénia tinha mais dois filhos de tenra idade e estava em vésperas de ser novamente mãe. O funeral realizou-se ontem, saindo do hospital de Beja para o cemitério de Quintos. Centenas de pessoas vieram de Baleizão para acompanhar o préstito, verificando-se impressionantes cenas de dor e de desespero. Segundo nos consta, o oficial causador da tragédia foi mandado apresentar em Évora.»

A esta notícia acrescente-se que o tenente Carrajola foi transferido para Aljustrel, mas nunca veio a ser sequer julgado em tribunal. Morreu em 1964.

Sobre o que se passou, pouco mais se pode dizer. Catarina era analfabeta, mas, segundo parece tinha uma inteligência viva e era uma mulher corajosa. Há quem diga que o tenente se descontrolou com as réplicas desassombradas da rapariga às suas ameaças; há mesmo quem diga que a arma (uma pistola metralhadora FBP) se disparou acidentalmente… O que é possível dada a reduzida fiabilidade da segurança da arma em questão. Revelando, em todo o caso, desmazelo, pois o disparo acidental – se foi acidental – deve-se ao não accionamento da patilha de segurança imobilizadora do gatilho. Mas, perante as descrições que nos chegaram, parece mais plausível um descontrolo emocional do oficial, posto em cheque, perante os seus homens e perante as ceifeiras, pelas respostas da rapariga. Chega-se sempre à encruzilhada onde as veredas da lenda e da realidade se confundem.. E, para lá das lendas e do que se conta, há uma realidade insofismável: Catarina foi assassinada. Assassinada por pedir para si e para as companheiras mais dois escudos diários.

O pintor José Dias Coelho representou assim o assassínio de Catarina.

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Quando criou esta bela gravura não podia prever que, anos depois, no dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário, no bairro lisboeta de Alcântara, também ele seria assassinado a tiro por uma brigada da PIDE.

Voltando a Catarina, a sua trágica morte, transformou-a num símbolo da resistência à ditadura. Houve uma abusiva apropriação partidária da sua imagem. Segundo se julga ela nunca militou em qualquer partido. Mas os artistas e intelectuais portugueses compreenderam que o exemplo de Catarina transcendia a dimensão partidária. Os artistas plásticos, como José Dias Coelho (ele, sim, militante do PCP), os poetas, os músicos, dedicaram-lhe composições, muitas delas concebidas antes da Revolução de 1974. António Vicente Campinas, Carlos Aboim Inglez, Eduardo Valente da Fonseca, Francisco Miguel Duarte, José Carlos Ary dos Santos, Maria Luísa Vilão Palma, Sophia de Mello Breyner Andresen, dedicaram-lhe poemas. No meu livro “A voz e o Sangue”, editado em 1968, incluí também uma extensa “Ode a Catarina Eufémia”. O livro foi proibido quando ia já na 2ª edição e fui preso (não só pelo poema sobre Catarina, mas também). Não conhecia a notícia do jornal, nem o relatório da autópsia – a descrição mais desenvolvida que li foi a de um livro de um jornalista francês.

Não sei se há seres humanos talhados para ser heróis. Catarina não esperava correr perigo quando se pôs à frente das outras mulheres.. Se assim fosse, não teria levado os filhos, Porém, a meu ver, o facto de não ser uma líder partidária e de não ter premeditado qualquer acto de heroísmo, torna ainda mais comovedora a sua atitude … heróica – a besta negra da morte, surgiu-lhe sob a forma de um tenente da GNR. Perante esta surpresa sinistra, não vacilou e cumpriu o seu papel de ser humano.. Diante da morte, defendeu a vida. Perante as trevas defendeu a luz. E não necessitou de anos de estudo, nem de ler tratados de ética, não recorreu a qualquer locução latina – em segundos, tomou a decisão. Penso que os poetas não precisam de rectificar os seus poemas. A memória de Catarina Eufémia justifica cada um dos versos que inspirou.


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