“A par dos anseios da sua geração e com ela partilhando um sentimento de revolta perante a injustiça social vigente, Nuno San-Payo inicia a sua prática pictórica em 1945, precisamente o ano que marca o fim da Segunda Guerra Mundial e confirma o inesperado: a atrocidade maior do Holocausto do povo judeu perpetrado pela Alemanha nazi […]
[…] entre o final dos anos 40 e o início da década seguinte, a pintura de Nuno San-Payo apresenta já uma nítida filiação neorrealista, envolvendo-se com o espírito inquieto da oposição esperançosa do pós-guerra perante a vitória Aliada e ousando imagens incómodas, na órbita de um marxismo impetuoso, que acalentava auspícios de intervenção e mudança na lenta e aquietada vida portuguesa do Estado Novo. Salazar estava então no auge da sua legitimação, depois de evitada a participação na guerra, como espécie de desígnio providencial ou luminária eterna, bênção maior do regime. E os artistas que frequentavam as Escolas de Belas Artes de Lisboa e do Porto viam na autocomiseração do povo obediente, expressa na quieta melancolia da “nação”, a antítese do sonho e da transformação que a sua condição de jovens adultos desde logo exigia, sem concessões, inspirados pela mítica revolução bolchevique, distante e imaginada na heroicidade conveniente aos mais audazes, corajosos e sonhadores […]. “
David Santos
(Diretor do Museu do Neo-Realismo. Excerto do ensaio sobre a obra de Nuno San-Payo, no catálogo da Exposição)

