MINIBLOGOTEATRO – UM CASO SEM IMPORTÂNCIA- 5 – por António Gomes Marques

Empty Stage(Conclusão) 

Chefe

– (Como se não tivesse havido interrupção) … é o que todos estes peçonhentos são. (Pausa) A mim, você parece-me estar cheio de boas intenções. Tome cuidado e não proceda de modo a que tenhamos que o prender. Foi para o seu bem que aqui o trouxámos e, no caso de um dia o prendermos, será também para seu bem…, não esqueça que não há quem mais lamente as prisões que esta polícia faz, do que a própria polícia. (Pausa) Pode ir-se embora!

Rapaz

– (Levanta-se e pega na revista. Um tempo. Ao encaminhar-se para a porta, diz, olhando o Chefe) E o meu livro?

Chefe

– Fica porque eu gosto muito de ler os livros de que as pessoas como você… gostam.

Rapaz

– Nesse caso, teria sido muito mais bonito pedir-me o livro emprestado que eu talvez não me importasse de o fazer.

Chefe

– (Sorriso forçado) Já agora, dê-me a sua opinião acerca do livro.

Rapaz

– Nada de transcendente, é uma pura crítica à Inquisição.

Chefe

– Está bem, e além disso?

Rapaz

– Nada mais. Como disse, não passa de uma crítica cerrada à Inquisição.

Chefe

– Mas talvez o autor se tivesse servido disso para fazer uma crítica ao presente, como muitos fazem.

Rapaz

– Não, não me parece. A meu ver não passa do que lhe afirmei.

Chefe

– Está bem, não preciso de mais nada.

O Rapaz aproxima-se da porta e quando está quase a atingi-la:

Chefe

– Olhe uma coisa: você não pertence ao partido, pois não?

Rapaz

– (Fazendo-se admirado e mantendo-se perto da porta) Ao partido?

Chefe

– Sim… ao partido… comunista.

Rapaz

– (Dando uma gargalhada e como se já esperasse tal pergunta) Não senhor! Nada disso!

Chefe

– (Rápido) Nem paga quaisquer quotas?

Rapaz

– (Continuando a sorrir) Não senhor!

Chefe

– (Rápido) E este seu amigo?

Rapaz

– (Mesma atitude) Também não! Vê-se mesmo que o senhor não o conhece.

Chefe

– Está bem, pode ir-se embora.

Rapaz

– Agradecia que alguém me indicasse a saída pois que, eu, para aqui chegar, passei por tantas portas e salas com sofás, subi por escadas que tão depressa me levavam para a direita como para a esquerda que, por certo, não sou capaz de chegar à rua.

O Chefe faz sinal ao 3.º Polícia, que se levanta. O Rapaz põe as mãos nos bolsos, apertando a revista entre o braço e o tronco, e, sorrindo para aquele polícia, espera que este lhe abra a porta, saindo, assim, de cena.

Silêncio. Enquanto todos vão arrumando as secretárias. Findo isto, diz o

1.º Polícia

– O Chefe dá licença que vamos almoçar?

Chefe

– Não senhor.

2.º Polícia

– Mas, Chefe, daqui a pouco são horas de lanche!

Chefe

– (Irritado) Já disse que não! Enquanto não interrogarmos todos os comunistas que vocês e os vossos colegas trouxeram hoje, não saímos daqui.

1.º Polícia

– (Encolhendo os ombros e dirigindo-se ao 2.º Polícia, resignado) Vai buscar mais um.

Apagam-se as luzes desta cena, voltando-se a iluminar o recanto do café, onde o Rapaz já se encontra sentado com os Amigos.

Rapaz

Agora, digam lá se estão dispostos a continuar com o ciclo de palestras.

2. Amigo

– Por mim, acho que é de continuar.

1.º Amigo

– Eu sou da mesma opinião. E tu?

Rapaz

– A minha resposta só pode ser uma: vamos combinar o que temos a combinar com o próximo conferencista.

2.º Amigo

– Primeiro, queria que me desses uma opinião sobre os programas a fazer.

Rapaz

– Mostra lá.

Logo que o 2.º Amigo tira do bolso uns papéis que espalha sobre a mesa, as luzes diminuem sem se apagarem por completo e, enquanto os três Amigos mimam a discussão com os pormenores que lhes interessam, um foco iluminará o Escritor, que se levanta do sofá e se encaminha para o proscénio. Aqui, olha o público e diz:

Escritor

– Senhoras e Senhores espectadores! O pano terá que descer neste momento. Aqueles jovens (apontando-os com o olhar) vão sair daquele café dispostos a fazer aquele mínimo que um grupo isolado e inexperiente ainda pode fazer. Lutam pelos seus ideais com a certeza de que serão os ideais do Mundo de amanhã. Dependerá isto deles? … Só deles?

Pensem nisto e respondam-nos como devem responder-nos.

(Olha o Público. Pequena pausa. Dá um passo atrás e fala para os bastidores) Desçam o pano, por favor.

(O pano deverá descer rapidamente

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