– (Como se não tivesse havido interrupção) … é o que todos estes peçonhentos são. (Pausa) A mim, você parece-me estar cheio de boas intenções. Tome cuidado e não proceda de modo a que tenhamos que o prender. Foi para o seu bem que aqui o trouxámos e, no caso de um dia o prendermos, será também para seu bem…, não esqueça que não há quem mais lamente as prisões que esta polícia faz, do que a própria polícia. (Pausa) Pode ir-se embora!
Rapaz
– (Levanta-se e pega na revista. Um tempo. Ao encaminhar-se para a porta, diz, olhando o Chefe) E o meu livro?
Chefe
– Fica porque eu gosto muito de ler os livros de que as pessoas como você… gostam.
Rapaz
– Nesse caso, teria sido muito mais bonito pedir-me o livro emprestado que eu talvez não me importasse de o fazer.
Chefe
– (Sorriso forçado) Já agora, dê-me a sua opinião acerca do livro.
Rapaz
– Nada de transcendente, é uma pura crítica à Inquisição.
Chefe
– Está bem, e além disso?
Rapaz
– Nada mais. Como disse, não passa de uma crítica cerrada à Inquisição.
Chefe
– Mas talvez o autor se tivesse servido disso para fazer uma crítica ao presente, como muitos fazem.
Rapaz
– Não, não me parece. A meu ver não passa do que lhe afirmei.
Chefe
– Está bem, não preciso de mais nada.
O Rapaz aproxima-se da porta e quando está quase a atingi-la:
Chefe
– Olhe uma coisa: você não pertence ao partido, pois não?
Rapaz
– (Fazendo-se admirado e mantendo-se perto da porta) Ao partido?
Chefe
– Sim… ao partido… comunista.
Rapaz
– (Dando uma gargalhada e como se já esperasse tal pergunta) Não senhor! Nada disso!
Chefe
– (Rápido) Nem paga quaisquer quotas?
Rapaz
– (Continuando a sorrir) Não senhor!
Chefe
– (Rápido) E este seu amigo?
Rapaz
–
– (Mesma atitude) Também não! Vê-se mesmo que o senhor não o conhece.
Chefe
– Está bem, pode ir-se embora.
Rapaz
– Agradecia que alguém me indicasse a saída pois que, eu, para aqui chegar, passei por tantas portas e salas com sofás, subi por escadas que tão depressa me levavam para a direita como para a esquerda que, por certo, não sou capaz de chegar à rua.
O Chefe faz sinal ao 3.º Polícia, que se levanta. O Rapaz põe as mãos nos bolsos, apertando a revista entre o braço e o tronco, e, sorrindo para aquele polícia, espera que este lhe abra a porta, saindo, assim, de cena.
Silêncio. Enquanto todos vão arrumando as secretárias. Findo isto, diz o
1.º Polícia
– O Chefe dá licença que vamos almoçar?
Chefe
– Não senhor.
2.º Polícia
– Mas, Chefe, daqui a pouco são horas de lanche!
Chefe
– (Irritado) Já disse que não! Enquanto não interrogarmos todos os comunistas que vocês e os vossos colegas trouxeram hoje, não saímos daqui.
1.º Polícia
– (Encolhendo os ombros e dirigindo-se ao 2.º Polícia, resignado) Vai buscar mais um.
Apagam-se as luzes desta cena, voltando-se a iluminar o recanto do café, onde o Rapaz já se encontra sentado com os Amigos.
Rapaz
Agora, digam lá se estão dispostos a continuar com o ciclo de palestras.
2. Amigo
– Por mim, acho que é de continuar.
1.º Amigo
– Eu sou da mesma opinião. E tu?
Rapaz
– A minha resposta só pode ser uma: vamos combinar o que temos a combinar com o próximo conferencista.
2.º Amigo
– Primeiro, queria que me desses uma opinião sobre os programas a fazer.
Rapaz
– Mostra lá.
Logo que o 2.º Amigo tira do bolso uns papéis que espalha sobre a mesa, as luzes diminuem sem se apagarem por completo e, enquanto os três Amigos mimam a discussão com os pormenores que lhes interessam, um foco iluminará o Escritor, que se levanta do sofá e se encaminha para o proscénio. Aqui, olha o público e diz:
Escritor
– Senhoras e Senhores espectadores! O pano terá que descer neste momento. Aqueles jovens (apontando-os com o olhar) vão sair daquele café dispostos a fazer aquele mínimo que um grupo isolado e inexperiente ainda pode fazer. Lutam pelos seus ideais com a certeza de que serão os ideais do Mundo de amanhã. Dependerá isto deles? … Só deles?
Pensem nisto e respondam-nos como devem responder-nos.
(Olha o Público. Pequena pausa. Dá um passo atrás e fala para os bastidores) Desçam o pano, por favor.