EDITORIAL – O futuro do livro em discussão no Panamá

Noticiámos ontem a abertura, no Panamá e  no quadro da Cimeira Ibero-Americana, de um «Congresso  Internacional da Língua Espanhola». Transcrevemos a intervenção de Mario Vargas Llosa, que considerámos formal e pouco imaginativa, ao contrário daquilo a que nos habituou o grande novelista peruano. Ontem, no segundo dia de trabalhos, debateu-se um tema recorrente desde há quase duas décadas – a ameaça que a era digital pressupõe para a luminosa galáxia que Gutenberg criou – a do livro impresso.

É Imagem2um tema muito interessante, mas que nos parece estar a ganhar contornos de futilidade e a ser mesmo objecto de especulação por parte dos agentes do livro tradicional. Umberto Eco disse há tempos numa entrevista o essencial sobre o assunto – o livro é uma invenção consolidada, tal como a roda. E só a invenção de outra forma mais eficaz de comunicação de ideias pode destronar o livro. Não são inovações tecnológicas de vida fugaz, dependentes de dispositivos de leitura perecíveis,  que podem substituir a imprensa. Um livro impresso há quinhentos anos, pode ser lido hoje, desde que o leitor possua a bagagem cultural que lhe permita descodificar o texto. Daqui a cinco séculos haverá quem consiga extrair alguma informação de um Tablet, de um Kindle, de um iPad, ou mesmo de um CD ou DVD? Talvez, mas apenas se nessa altura os investigadores científicos conseguirem compreender a linguagem arrevezada dos manuais de utilização impressos em papel… Manuais conservados numa qualquer biblioteca tradicional.

O livro não será eterno. A própria invenção que o criou, a prensa de Gutenberg, começou a dar lugar a formas alternativas de informação – as gazetas, cerca de um século depois, seriam o ponto de partida para conceitos de informação renovável – jornais, rádio, televisão… O livro electrónico é um livro – o facto de não estar materializado sobre a sua forma mais tradicional não lhe retira essa condição. O conceito é o mesmo – só o suporte muda.

Como se diz num vídeo muito interessante e criativo, o livro impresso está tecnologicamente muito à frente de todas as criações digitais – apenas requer para ser lido o equipamento com que todos os seres humanos são dotados – os olhos ou as pontas dos dedos no caso dos leitores invisuais…

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