POESIA AO AMANHECER – 304 – por Manuel Simões

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JOSÉ DA SILVA MAIA FERREIRA

( 1810? – depois de 1879 )

NO ÁLBUM DE VIEIRA DE CARVALHO

Qual perla arrojada por vagas altivas

De ventos batida em horrível tufão

Assim despontaste na terra em que vives

Nos plainos ardentes do ardente torrão.

Qual flor espontânea sorrindo fragrante

Que as mãos da procela por terra lançou

Assim no rigor das areias ferventes

Aos olhos do mundo o teu brilho murchou.

E murcha e pendida por sóis abrasada

Num horto privado das regas d’amor

Tu vives mirrada aguardando saudosa

Um vaso doirado d’encanto e primor.

E embora o teu fado te cerque maldoso

D’espinhos ervados d’agudo pungir

Por terras não ficas de rojo prostrada

Porque hás-de no mundo mil vezez florir.

(de “Espontaneidades da Minha Alma”)

Nasceu em Benguela (Angola). Supõe-se que era mestiço. Em 1849 esteve no Brasil, onde ultimou o seu único livro, depois publicado em Luanda. Colaborou no “Almanach de Lembranças” (Lisboa, 1879). Há na sua poesia, através da valorização da mulher africana, vestígios da consciência nacional que se estava formando. Publicou o livro “Espontaneidades da Minha Alma – Às Senhoras Africanas” (1849).

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