POESIA AO AMANHECER – 306 – por Manuel Simões

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EDUARDO NEVES

( 1855 –  ? )

CANA’NGANA

À sombra da palmeira sussurrante

eu gozo as delícias de Capua,

ouvindo com prazer cantar a ndua

na múrmura floresta verdejante.

A brisa perpassando, de inconstante,

oscula com meiguice a face tua;

desprende-te essa trança e continua

beijando-te esse colo provocante…

Quem dera, minha amada, que esta vida

me fosse dado ver sempre envolvida

na luz do teu olhar, bela africana.

Mas quando tento louco dar-te um beijo,

sem nunca saciares meu desejo

tu foges, suspirando: – cana’ngana!

(de “Almanach de Lembranças”, 1884)

Nasceu em Portugal. Colaborou nos jornais de Angola e no “Almanach de Lembranças”. A sua poesia veicula ainda o tópico da cor, exaltando a mulher negra, com a novidade da convivência linguística: português e quimbundo. “Cana’ngana” significa “não, senhor”.

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