
Eu, Osvaldo Cruz, afirmo que o primeiro inimigo a abater é a febre amarela, com o seu vómito negro e mortal. Tenho portanto que liquidar o stegomia fasciata, o mosquito raiado que, ao picar os homens, neles inocula o gérmen da doença. E isso só se consegue eliminando as águas estagnadas onde proliferam as larvas e as ninfas dos mosquitos raiados. Pedi ao Presidente um contigente de 1200 homens mas o Congresso, com as suas burocracias, tarda em aprovar o meu pedido. Então resolvo que uma brigada de 85 homens, chefiados pelo meu amigo Dr. Carneiro de Mendonça, saia em campo. Os meus fiscais sanitários batem quintais e jardins. Na ânsia de desinfetar invadem pátios e porões, trepam aos telhados, saturam com petróleo as águas estagnadas, poças e charcos. No início, os cariocas divertem-se e troçam dos mata-mosquitos. O Dr. Carneiro de Mendonça passa a ser o mosquiteiro-mor e eu ganho a alcunha de czar dos mosquitos. Mas depois a população do Rio, tocada pela imprensa (prosa satírica e caricaturas) e pela Oposição a Rodrigues Alves, irrita-se, hostiliza, apela para a violência. Para impedir a inspeção domiciliar dos meus agentes, os proprietários impetram habeas-corpus. A Justiça começa por lhes dar razão e eu entro na briga. Em Tribunal alego que, se numa rua, uma casa ficar por desinfetar, em breve a febre amarela tomará conta dos seus habitantes que irão infetar os vizinhos e isso é quanto basta para regressarmos aos cem óbitos diários de antigamente. O Supremo Tribunal recua, o habeas-corpus não pode ser aplicado nestes casos. E eu trato de acelerar o saneamento da cidade. Rodrigues Alves pede-me que eu não seja tão rígido. Não cedo e coloco o meu cargo à sua disposição. O Presidente mantém-me no posto. Chega mesmo a dizer para um amigo comum:
– É impossível que esse moço não tenha razão.
No primeiro semestre de 1903, no Rio de Janeiro ocorreram 469 óbitos por febre amarela. Já no primeiro semestre de 1904 apenas 39. E em 1906 dou por extinta a epidemia de febre amarela. Cumpri o prometido: 3 anos para acabar com a peste!
