Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 122 – por Manuela Degerine

Quiproquós

Imagem1Entro em Macieira da Maia – Vilarinho – ao meio-dia e meia. Sabendo que é sábado, que pode ser hora de almoço, que a farmácia se situa longe do Capri, peço logo a chave do albergue neste café, o qual se situa à entrada da terra; quero acima de tudo evitar as idas e voltas. Fitam-me com espanto. Quem me informou que, se não está na farmácia, está no café Capri? Não acabo de chegar? Por os roteiros serem muito completos em tudo quanto nos importa, é frequente os peregrinos disporem – neste domínio – de informações que os habitantes ignoram. Ninguém possui a totalidade do conhecimento referente a um espaço, apenas o que lhe diz respeito em função da idade, relações, ocupações, interesses; no entanto, sobretudo nos meios pequenos, quem lá vive pensa saber tudo e isto, mais a incompreensão linguística, mais a total incompreensão das aparências, motivações e comportamentos, dá por vezes aos peregrinos de Santiago uma dimensão fantástica – ou suspeita. Quando verificam que afinal falo português, aproveitam em alguns lugares para me perguntar:

– Como é que vocês conhecem os caminhos?!

Encontro de facto – ao passar – a farmácia fechada. Sessenta mil passos me separam neste momento dos bombeiros do Porto, o que menos desejo é ir e vir entre a farmácia e o café, trezentos metros metamorfoseados em quilómetros mais a sensação de calçar botas de chumbo… Quando aqui cheguei pela primeira vez, em 2010, parecia que me despejavam o depósito de água por cima da cabeça, não via nada, quase não conseguia respirar, menos ainda atinar com a localização do albergue; agora abro o portão, atravesso o terreno ervoso, meto a chave na sua fechadura. Esta familiaridade não me é desagradável… Na primeira viagem senti o sabor – e o desconforto – da descoberta, agora a curiosidade não diminuiu, a experiência reduz as dificuldades, as surpresas continuam possíveis, mesmo as menos desejáveis… Neste instante em que anseio por largar a mochila e almoçar, o albergue de Vilarinho parece-me o lugar mais aprazível da Terra.

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