Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Renovação industrial da Europa
Gilbert Ribes
Nota introdutória
Um texto enviado por Philipe Murer é sempre um texto a ler com particular atenção. Este em particular, que nos fala, e com que precisão, das vias a abrir para a renovação da Europa. Um tempo demasiado importante para caber num texto que pudéssemos fazer e tanto mais quanto estamos a ser assolados por terríveis tempos de crise em que os dirigentes no poder, e à semelhança dos rufias do Tea Party nos Estados Unidos, mais parecem disponíveis para ir ao assalto dos nossos bolsos, das nossas vidas, da destruição do nosso presente e do nosso futuro igualmente, em suma apostados em destruir o que ainda temos de sociedade.
Enquanto deixam a industria, passo a passo, cair face à orgia de um mercado mundial onde ninguém sabe o que são regras nem o que é a concorrência não falseada, enquanto deixam destruir o pequeno comércio, desde a roupa à fruta já, enquanto entregam o comércio do médio de gama para cima às multinacionais, enquanto tudo isso acontece estão a destruir a organização social em nome da soberania dos mercados. Como se isto não chegasse e como peça central neste mecanismo, organizam , inclusive, centros de exploração brutal para os sistemas de franchising e para os comerciantes aí instalados, como o Dolce Vita, Forum ou outros equivalentes, com milhares de milhões que mensalmente são pagos ao estrangeiro, apenas em rendas de casas desses mesmos centros” Mas nisto não se fala de austeridade. Diríamos mesmo, sem forçar muito a nota que se trata da versão moderna das sweatshops não em termos de fábricas mas do comércio. Fica-se sem saber quem é que é mais explorado: se o comércio, se a rapariguinha do shopping que pretende sobreviver, se a senhora que aos filhos a sobrevivência quer assegurar.
Por tudo isto parece-nos correcto afirmar que os dirigentes políticos nacionais no Poder assim como os das Instâncias regionais estão loucos e não sequer querem ver que estão a ser rodeados pelos novos Hunos que hão-de conquistar a Europa e isto à custa de tanto a quererem explorar.
Um texto notável, o que aqui apresentamos hoje, este pois é pelas vias por ele indicadas, é por aqui que passa a renovação da Europa, é por aqui que passa uma grande parte da resolução da crise das dívidas públicas, pomposamente agora chamadas de dívidas soberanas, e dizemos uma grande parte porque a outra passa pela regulação dos mercados financeiros e pela devolução ao Estado de ser ele a criar a moeda, criação pública e não criação privada. Enquanto assim não for e quanto mais intensa for a política de austeridade mais intensa será a força com que se organiza o nosso próprio descalabro económico e social. Os americanos têm uma expressão feliz para caracterizar esta política do absurdo : os europeus falam de internal deflation, mas o que eles criaram foi uma infernal deflation. E é num inferno que se está a viver nesta Europa interna e externamente ameaçada.
Boa leitura pois garantidamente trata-se de um bom texto e não darão por perdidos os minutos gastos.
Júlio Marques Mota
xxxxxx
União Europeia
Propostas para uma renovação industrial
Gilbert RIBES, Junho de 2013
O renascimento da indústria irá trazer consigo um crescimento muito forte na criação de emprego, um aumento do poder de compra, um aumento nas receitas fiscais e para a Segurança Social, a redução dos défices e das dívidas públicas, internas e externas.
A atractividade do mercado europeu (500 milhões de consumidores com uma rendimento médio alto) e a aplicação de taxas compensatórias ou de contingentes selectivos irá incentivar as empresas, de origem europeia ou externas à União, a fazer o necessário investimento industrial na União Europeia.
Para muitos sectores, as empresas que já dispõem da capacidade de produção podem fortalece-las se necessário e contribuir para o estabelecimento de uma rede de fornecedores na União de componentes de que elas precisam (aeronáutica, espacial, ferroviária, naval, automóvel, energia, produtos químicos, produtos farmacêuticos, agro-alimentar).
Para outras fileiras, as empresas que não dispõem de capacidade de produção na União serão incentivadas a criar ou a subcontratar a sua produção a ser realizada na Europa, (fileira electrónica – telefonia, televisão, informática -, produção de aparelhos electro-domésticos). A implantação da TOYOTA em Valenciennes (para contornar as quotas impostas aos carros japoneses) estará a prefigurar as implantações industriais da União Europeia para fabricar os produtos que importamos actualmente dos países emergentes (produtos APPLE, SONY, HP, ACER, HUAWEI e HAIER).
Para os têxteis, o calçado ou os brinquedos e muitos dos componentes necessários para os outros sectores, a relocalização na União Europeia está ao alcance de muitos empresários europeus ou não europeus , pequenos, médios ou grandes, jovens ou menos jovens. Esta relocalização empregará muitos trabalhadores pouco qualificados e permitirá reequilibrar as trocas comerciais com alguns países emergentes.
Da mesma maneira também se esta relocalização deve beneficiar principalmente os países menos desenvolvidos da União, os outros países não deixarão de daí tirarem vantagens directas (exportações de outros produtos que estes países não são capazes de fornecer) e indirectas (equilíbrio económico e social da União). Tudo isto, mesmo que algumas produções estejam relocalizadas nos países menos avançados da bacia do Mediterrâneo (exportações de outros produtos, limitação de pressão migratória).



