POESIA AO AMANHECER – 309 – por Manuel Simões

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GERALDO BESSA VICTOR

( 1917 – 1985 )

O MENINO NEGRO NÃO ENTROU NA RODA

O menino negro não entrou na roda

das crianças brancas – as crianças brancas

que brincavam todas numa roda viva

de canções festivas, gargalhadas francas…

O menino negro não entrou na roda.

E chegou o vento junto das crianças

– e bailou com elas e cantou com elas

as canções e danças das suaves brisas,

as canções e danças das brutais procelas.

E o menino negro não entrou na roda.

Pássaros, em bando, voaram chilreando

sobre as cabecinhas lindas dos meninos

e pousaram todos em redor. Por fim,

bailaram seus voos, cantando seus hinos…

E o menino negro não entrou na roda.

“Venha cá pretinho, venha cá brincar”

– disse um dos meninos com seu ar feliz.

A mamã, zelosa, logo fez reparo:

o menino branco já não quis, não quis…

E o menino negro não entrou na roda.

O menino negro não entrou na roda

das crianças brancas. Desolado, absorto,

ficou só, parado com olhar de cego,

ficou só, calado com voz de morto.

(de “Ao som das marimbas”)

Mestiço, foi poeta, ensaísta e jornalista. Fez parte do movimento “Cultura I” e de “Mensagem” Não obstante recorde na Europa as vivências africanas, a sua temática revela-o como precursor de um discurso que estava nascendo. Publicou: “Ecos dispersos” (1941), “Ao som das marimbas” (1943), “Debaixo do céu” (1949), “A restauração de Angola” (1957),  “Mucanda” (1965),“Sanzala sem batuque” (1967) e “Monandengue”(1973). A Imprensa Nacional de Lisboa publicou a sua “Obra Poética” (2001). “Menino negro não entrou na roda” foi a primeira canção musicada e cantada por Luís Cília, gravada em 1964.

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