Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 124 – por Manuela Degerine

Inquietude

Imagem1Estendo o saco-cama em cima do colchão badalhoco pois, enfim, falta-me força para caminhar mais treze quilómetros, transportar a mochila com o seu peso crescente durante mais três ou quatro horas… E prefiro esperar alguns dias pela tendinite. Ou pelo lumbago.

O tacho de alumínio ainda aqui se encontra. E um prato. E um garfo. Basta para eu fazer um arroz – que acabo de comprar – com noz de caju, açafrão, piripiri, cravinho, cominhos que trouxe de casa. Ao qual acrescento queijo. E que me parece um manjar celeste. Como um kiwi, uma maçã, bebo chá, saboreio um pedaço de chocolate… Sinto-me muito melhor. Falta-me um duche para poder entrar no saco-cama: descansar.

Começaram porém a jogar entre a rua e este alinhamento de portas, um terreno com ervas altas que é usado como campo de desporto; e eu prefiro não me mostrar enquanto estiver aqui sozinha. O albergue situa-se numa divisão da escola talvez destinada a arrumações, já que não tem janelas, apenas frestas envidraçadas, sendo no interior constituído por dois beliches, uma mesa, duas cadeiras, um caixote do lixo e um pequeno armário com, por cima, um lava-loiça e uma placa elétrica. Para ir à casa de banho sai-se desta divisão, isto é, para o pátio onde agora jogam, abre-se mais adiante outra porta.

Lavo a loiça. Lavo a seguir a roupa transpirada e suspendo-a no outro beliche. (Cada manhã a hei de vestir molhada: um arrepio que dura poucos segundos.) Podem a qualquer instante chegar outros peregrinos, por isso enrolei um pareo à volta do corpo, para não vestir a roupa limpa antes de tomar duche. O problema… Neste dia 6 de abril a temperatura aqui dentro não ultrapassa a exterior. Uns quinze graus. Preparo a bolsa para amanhã com, além do que hei-de comer e beber, os objetos de uso frequente, o bloco, a caneta, a colher, o canivete, o chapéu, o protetor solar, os lenços de papel; uma repartição que precisava de ser ajustada. Começo a escrever o diário da primeira etapa, acabo de escrever o diário da primeira etapa… São duas horas, são três horas, são quatro horas. Lá fora continuam a jogar, eu continuo sentada na cadeira e as minhas costas, que durante seis horas transportaram dez quilos de bagagem, reclamam uma posição horizontal.

Gostava que chegassem outros caminhantes, passar a noite aqui sozinha não me entusiasma, há duas chaves, no mínimo, que giram do café para a farmácia, ignoro quem a elas teve acesso… Volto a fazer chá. Como outra maçã. Acabo os biscoitos. Sinto frio. Sinto vontade de urinar. Porém os desportistas teimam atrás da bola e eu teimo em passar despercebida.

São quase cinco horas quando deixo por fim de ouvir barulho. Preciso de um duche muito quente mas, por mais que espere, a água permanece fria. Ah, que desagradável… Faço uma sopa instantânea para aquecer. E enfim deito-me.

Embora os roteiros desaconselhem este albergue, eu não esperava que todos os caminhantes o evitassem… No que me toca: dou graças aos que o mantêm mesmo assim existente. É pena que os peregrinos apanhem o Metro e assim percam, entre Vilarinho e S. Pedro de Rates, uma das melhores partes do Caminho Português. Inquieta todavia com o isolamento, incomodada com a sujidade: não consigo dormir.

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