Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Relatório sobre o emprego nos EUA
22 de Outubro de 2013,
Um quadro desanimador
Jared Bernstein
Jared Bernstein é um alto funcionário do Center on Budget and Policy Priorities em Washington e antigo economista-chefe do vice-presidente Joseph R. Biden Jr.
Um outro relatório sobre o fraco nível de emprego foi agora lançado, com dados de setembro referentes ao mercado de trabalho. O atraso do relatório deve-se à paralisação – desde quando é que numa terça-feira são publicados os dados do emprego? Estranho! – As folhas de pagamento do mês passado cifraram-se num tímido valor de 148.000, embora se tenha registado uma ténue queda na taxa de desemprego de 7.3% para 7,2% (e não porque as pessoas deixaram o mercado de trabalho, razão pela qual a taxa de desemprego caiu em meses anteriores).
Acrescente-se, não obstante este relatório não reflete o impacto de todos os funcionários do governo furloughed (licença temporária), entre outros impactos negativos relacionado com esta questão.
Os dados mensais do emprego são notoriamente ruidosos. Aproveitemos o fato de termos disponíveis dados para os três primeiros trimestres do ano, o que nos permite dessa forma suavizar os picos e cavas nas variações mensais ao longo de três meses e construir a figura 1 (abaixo), aonde se encontram espelhados os ganhos médios mensais da folha de pagamento dos 3 trimestres de 2013, tanto para o total do mercado de trabalho como para o setor privado.
Figura 1
Fonte: Bureau of Labor Statistics, author’s calculations
Uma imagem deveras desmoralizadora. Ao longo deste último 3ºT2013 a massa salarial atingiu em média USD143 mil por mês, contra USD182 mil registado no mês antecedente e USD207 mil no 1ºT2013.
Já o registo de pagamentos privados apenas cresceu em média USD129 mil por mês, muito abaixo do valor médio mensal de USD212 mil (em si só um ritmo moderado de crescimento do emprego), no primeiro trimestre do ano.
Admite-se no entanto a hipótese de que a fatia dos empregadores se mostravam apreensivos e cautelosos, no que respeita a novas contratações, com base nas suspeitas de que uma paralisação do governo era iminente. Contudo duvido. O padrão de desaceleração parece-me muito mais consistente com a já enraizada fraca procura que vem atormentando a recuperação.
Como assim? Nós estamos num quadro de recuperação? Sim, e tem sido assim desde há quatro anos. Todavia não se traduz no mercado de trabalho, dado que o nível de desemprego ainda se encontra muito elevado e, mais uma vez observa-se uma desaceleração no crescimento do emprego.
Sim, as instituições financeiras têm auferido grandes lucros – pois o crescimento tem que se refletir em algum lugar, neste caso no balanço das instituições financeiras (note-se porém que dia 22/10/2013 o mercado de ações abriu em alta, antevendo e depositando esperança que o Fed irá adiar o corte na torneira), todavia os salários estão quase batendo no mínimo admissível, uma das razões, a inflação.
Quando tanta desigualdade econômica é construída sobre a estrutura da mesma economia, é exatamente o resultado que devemos esperar quando o mercado de trabalho se encontra fragilizado. Simplesmente não há nenhum poder que permita à classe trabalhadora reivindicar o seu quinhão do crescimento.
Não tenho absolutamente dúvida nenhuma que a disfunção da política orçamental e a política em geral provocam um vincado deterioramento nas condições de vida da classe trabalhadora. A desaceleração da massa salarial constatada este ano é outro facto que resulta da contribuição das políticas praticadas, portanto em sintonia com o caso exposto.

