Publicamos a segunda fotografia de Fábio Roque nesta série em que o dia-a-dia da mulher magrebina é posto em paralelo com a poesia que no Al-Andalus as mulheres escreveram ou suscitaram. Como dissemos ontem, com a chegada dos Almóadas ao poder, a poesia ressurgiu. Durante a dinastia Almorávida ou durante o regime das taifas, o carácter profano da arte poética esteve sob um controlo mais severo. Em Granada, no século XII a situação mudou com a nova ordem política. A produção poética feminina aumentou em qualidade e em quantidade. Abū Ŷa‘far ibn Sa‘īd, o amante de Hafsa, era poeta também e, como dissemos, oriundo de uma família de aristocratas e, como aconteceu com boa parte da nobreza andalusie, opunha-se ao domínio almóada. Foi aprisionado e condenado à morte. Ao ter conhecimento da sentença, Abū Ŷa‘far disse a um primo que o foi visitar à prisão que considerava imerecidas as lágrimas que por ele chorassem, pois gozara de todos os prazeres – banquetes, roupas luxuosas, as melhores armas e os melhores corcéis, o amor das mulheres mais belas…Hafsa, a autora do poema de ontem, foi uma dessas mulheres e manteve o luto por ele até morrer e dedicando-lhe diversos poemas nos quais clama a irremediável ausência do seu amado:
Envio uma saudação, que abre as corolas das flores
E faz arrulhar os pombos nas ramagens.
A quem estando ausente me habita as entranhas,
Embora de vê-lo estejam os meus olhos proibidos.
Não julgueis que a vossa ausência me faz olvidar-vos
Isso, por Deus, nunca acontecerá!
Perguntai ao estremecente relâmpago na noite serena
Se me fez recordar amores à meia-noite,
Pois voltou a fazer palpitar o meu coração
e me ofertou a chuva que me cai pelo rosto.
(Tradução feita a partir da versão em castelhano do Professor Vicente Cantarino).


Que bonito! Nem véus. nem preconceitos nem proibições e nem prisões impedem que o amor floresça,
nem que com ele floresça a poesia
Rachel Gutiérrez