POESIA AO AMANHECER – 313 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

ALEXANDRE DÁSKALOS

( 1924 – 1961 )

QUE É S. TOMÉ (II)

(fragmento)

Este mente, aquele mente

outro mente… tudo igual.

O sítio da minha embala

aonde fica afinal?

A terra que é nossa cheira

e pelo cheiro se sente.

A minha boca não fala

a língua da minha gente.

Com vinte anos de contrato

nas roças de S. Tomé

só fiz quatro.

Voltei à terra que é minha.

É minha? É ou não é?

Vai a rusga, passa a rusga

em noites de fim do mundo.

[…]

Vou comprar com o dinheiro

sobrado da minha mão

tudo quanto a gente come:

trinta vacas de fome,

galinhas de papelão.

Vou trabalhar nesta lavra

em terra que dizem nossa

quatro anos de contrato

em vinte anos de roça.

Eu foi S. Tomé!

Cabelo rapado

blusa de branco

dinheiro no bolso

calção e boné.

Aiué!

(de “Poesia”)

Colaborou na imprensa angolana e figura em várias antologias. Publicou trabalhos científicos da área da veterinária. Obra poética: “Poemas” (1961) e “Poesia” (1961), volumes publicados postumamente. Os seus temas andam à volta do chamado “contrato” em S. Tomé e outras zonas de África, para onde eram empurrados os que eram apanhados sem ter acesso a documentação de identidade.

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