OS GORROS VERMELHOS, por JACQUES SAPIR

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Bonnets rouges…Par Jacques Sapir

Publicação autorizada pelo autor

 31 Outubro de  2013

bretanha - III

… e papel timbrado :
Ou quando a História se recorda como saudável lembrança

Sabemos, talvez, que esse nome engloba uma das maiores revoltas do Ancien Régime, que ocorreu na Bretanha durante o reinado de Louis XIV em 1675 [1] e foi uma das maiores revoltas populares, prenúncio da revolução de 1789 [2].

Os bonés vermelhos, viram-se reaparecer   na Bretanha, e em especial neste sábado, 26 de Outubro de 2013,  durante os protestos que tiveram consequências  trágicas (um ferido e um  grave ferimento no pescoço, um outro com uma mão arrancada). Se estes eventos se transformaram   claramente em  motim, é que eles sobretudo testemunham  o desespero de uma parte da população.  A Bretanha, como sabemos, está a ser duramente atingida  pela crise actual. Esta traduz-se no  encerramento ou nos despedimentos  nas pequenas e médias empresas cujo papel é crítico em zonas de empregos altamente segmentados. Uma miséria neo-rural, concentrada  nas cidades ou vilas enormes, ligadas ao encerramento do  empregador local, está em vias de se estender, como uma mancha de óleo, pela Bretanha. Este fenómeno, que dura há mais de  dois anos veio somar-se  à  crise específica do sector agro-alimentar, que  arrasta com ela  uma parte da agricultura. O que se chama a  crise no sector dos suínos é o resultado de um dumping selvagem pela Alemanha abrigada  atrás do Euro. Este dumping está a devastar a Bretanha. Este é claramente visto através dos  problemas dos matadouros, de empresas como Doux  e Gad. Essas falências  e estes encerramentos vem adicionar miséria à miséria; muitas vezes é um casal e não apenas a mulher ou o homem que trabalham nessas empresas. O encerramento de um site, muitas vezes a única empregadora da região, é uma verdadeira sentença de morte.

Finalmente, gota de água final, temos o imposto ecológico, um imposto com base em princípios justos mas de tal modo tão mal arranjado que penaliza em  primeiro lugar os produtores locais e em  benefício do transporte pela auto-estrada. Além disso, os primeiros que são criados a 300 – km de Paris serão mais tributados do que as  saladas ou outros vegetais que chegam do outro lado do mundo, por avião a  Roissy. Esta é outra aberração de um imposto cuja aplicação foi entregue ao jogo dos lobbies europeus e à  inconsequência  dos altos funcionários que desconhecem as realidades locais. Estas são as razões para a revolta que, depois de ter sido incubada durante  vários meses, poderá vir a explodir  na Bretanha. Face a esta  revolta, as medidas anunciadas pelo governo não são sequer  da ordem do ridículo; elas são  um verdadeiro  insulto a  estes   milhares de pessoas que a política do governo atirou para as ruas e para as estradas, e onde elas só encontram à sua frente a polícia de  choque e a repressão.

Contudo, as  soluções estão ao alcance da mão do governo. A primeira delas  é, naturalmente, a dissolução da zona Euro seguida de uma desvalorização que só ela  pode restaurar a  competitividade da indústria e da economia francesa. Esta desvalorização tornará inúteis as reduções de  impostos que agora são tão necessárias para a sobrevivência de muitas empresas. Sobre cerca de 70 mil milhões que representam essas várias “brechas fiscais”, deveria assim ser  possível suprimir 30 mil milhões, pelo menos. Este ganho fiscal  importante (1,5% do PIB) irá permitir reduzir o volume de outros impostos.

Uma segunda solução é, naturalmente, um redesenhar  do eco-imposto para dele fazer um mecanismo de protecção das produções locais face às de longa  distância. É uma loucura que produtos  vindos de  milhares de quilómetros pagam menos que os outros que são feitos quase à porta dos consumidores.

Sem compreender a dimensão do desespero e a profundidade da revolta, este governo e este Presidente, cuja popularidade está mais ao nível mais  baixo e cuja legitimidade é agora claramente posta em causa, podem muito bem acordar um dia destes com a França revoltada contra eles.

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[1] Porchnev B., « Les buts et les revendications des paysans lors de la révolte bretonne de 1675 », publicado em  Les Bonnets rouges, Union Générale d’Éditions (collection 10/18), Paris, 1975

[2] Croix A., artigo  « Bonnets rouges » in Dictionnaire du patrimoine breton (sob la direcção  de Alain Croix et Jean-Yves Veillard), Éditions Apogée, 2000, p. 152

dans

http://russeurope.hypotheses.org/1643

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Para ler a introdução de Júlio Marques Mota a este trabalho de Jacques Sapir, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/11/07/julio-marques-mota-apresenta-os-gorros-vermelhos-de-jacques-sapir-sobre-a-situacao-na-bretanha/

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