Volta e meia, quando nos querem fazer engolir alguma explicação retorcida do complicado estado de coisas em que estamos metidos, impingem-nos expressões sonoras, mas de conteúdo nebuloso, à laia de explicação. Essas expressões revestem-se de um ar pretensamente científico, com palavras caras, perante as quais as nossas ignorâncias são supostas inclinarem-se e não ousarem dúvidas. Mas vão aparecendo no discurso do dia a dia, e por vezes são utilizadas um pouco sem se pensar no seu alcance.
Uma dessas palavras é “estrutural”. Temos o défice estrutural, o atraso estrutural, problemas estruturais. Atrevendo-nos a olhar o assunto de perto, chegamos á conclusão de que o termo é usado para qualificar situações mais complicadas, mais complexas, que afectam a maioria das pessoas, e cujas raízes são mais profundas, e por isso de mais difícil rectificação. Trata-se de um termo que vem sendo utilizado na análise da realidade política, social e económica, por analogia com uma realidade muito concreta, muito física, como é, por exemplo, a estrutura de um prédio. Não será excessivo pensar que se procura com essa analogia dar um ar de rigor à descrição de problemas que a todos nos atingem, com destaque para a crise em que nos encontramos e para a qual não vemos saída.
Para fazer aceitar a ideia de rigor por todos, ou pelo menos pela maioria das pessoas, é evidente que o que é considerado como estrutural tem de ser devidamente explicado, com o detalhe necessário. E as raízes das questões consideradas como estruturais têm de ser explicadas ao pormenor, e de maneira acessível. Um caso é o da crise financeira que nos assola. As suas raízes estão no passado histórico recente, e também mais longínquo. Contudo, responsáveis políticos e outros têm-se recusado a fazer essa análise, a dar essa explicação, preferindo concentrar-se no presente. Isto, sem prejuízo, de, em circunstâncias muito concretas, como directos na TV, por vezes quererem responsabilizar governos anteriores ou outras entidades pelo actual estado de coisas. Negam-se a fazer a análise profunda dos assuntos, sem abdicar de passar as culpas a outrem sempre que podem.
Os problemas estruturais (cá está o termo!) da nossa sociedade estão por conhecer e explicar devidamente. Tem havido tentativas o fazer, que levantaram alguma celeuma, mas que precisam de aprofundamento e continuidade. Veja-se um problema concreto, nesta notícia do Público:
Como é possível que num país em empobrecimento acelerado, imposto por cima, aumente o número de milionários, e estes, em conjunto, vejam aumentar o total das suas fortunas? Não acontecerá isto por causa de um problema estrutural da sociedade portuguesa, que combina grande concentração de riqueza com pouca mobilidade social? Esta situação já foi enunciada por alguns, há que alargar o debate. Até que a questão não é exclusivamente portuguesa. Leiam ao fim da notícia: 27% da riqueza mundial está na mão de 2170 milionários. O que quer isto dizer? Que implicações tem?

