Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 129 – por Manuela Degerine

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Identidades

Por cima de poliedros de granito cresce um jardim com muito líquen, muito musgo e muito sedum de diversas variedades, várias plantas suculentas, inúmeras gramíneas tenras, um ou outro delicado dente-de-leão, numerosas plantas que conheço sem saber nomear, algumas que nunca vi… A giesta amarela só tem por enquanto botões, mas vejo uma variedade branca em flor. Prossigo na companhia do verbo jazer, jouve, jouvera, jouvesse, que aprendi na escola, vou – sempre em movimento – inventando frases, embora enormes poliedros jouvessem pela encosta, não via onde pudera sentar-me, também não me parecia urgente, se bem que desejasse poupar a cavalgadura, costas e joelhos em especial, admirar os jardins suspensos, mais estender a caminhada… O horário do albergue de Ponte de Lima encoraja-nos a caminhar de maneira inteligente: vendo, sentindo, pensando o espaço que atravessamos. Temos tempo. (Ter tempo: um luxo.)

Reparo na bem nomeada Rua de Lamas quando surge, em sentido inverso, um andarilho. Seguiu o Caminho Francês, continua na direção do Porto, talvez até de Fátima… Trocamos impressões e informações. Desde que partiu – mais de mil quilómetros – só encontrou dois franceses.

Saboreamos, embora de pé, embora à chuva, embora com as mochilas às costas, o prazer de falarmos francês, o conforto do dito e do não dito. Interrogo-me às vezes se não serei uma francesa que escreve em português… Mas não é verdade. Sou francesa e sou portuguesa: de maneira pacífica por assumir a dualidade.

A neblina tapa as serras, esconde as igrejas e solares das encostas, compõe uma paisagem com verdes e cinzentos muito diversos. Passo por um faval com flores, boas favas dará daqui por um mês, passo por vinhas podadas, passo por vinhas por podar… Neste lugar o caminho é um lameiro, mais um para a coleção, nele perduram as marcas de um par de botas totalmente enterrado, alguém caminhava a olhar ao longe, pelo tamanho do pé, seria alto, caso contrário, enterrou as pernas até aos joelhos. Mais adiante uma fila de montes de esterco, com espaços regulares, muito paralela à vinha, expõe a estética do trabalho bem feito. Um belo texto, um belo campo… E a emoção que eles produzem. Chego a Vitorino de Piães.

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