Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 132 – por Manuela Degerine

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Fora de mão

Durmo muito bem e quando acordo, por volta das seis horas, as dores nas costas desapareceram. Devoro os flocos de aveia com iogurte: sinto-me cada vez melhor. Nem a mochila me parece pesada embora, com o que ontem trouxe do café e da mercearia, acrescentasse – no mínimo – quilo e meio, para além de tudo o que demais pesava para o meu metro e cinquenta e oito de altura… (Daqui até Rubiães há – em Revolta – apenas uma taberna com muita simpatia mas poucos produtos.) A etapa de hoje começa na ascensão, o que não me assusta, subo sem dificuldade, logo se segue porém a descida, cansativa para os tendões (e ligamentos). Nos anos anteriores caminhei de Ponte de Lima a Valença, cerca de trinta e seis quilómetros, se bem que no precedente acrescentasse a famigerada tendinite ao peso da mochila, duas fontes de prazer muito complementares pois, dali em diante, por me doer o joelho, caminhava lenta e penosamente, o que dobrava o tempo com a carga às costas, enquanto a dor no joelho era agravada pelo peso prolongado da dita mochila… Não me interessa repetir este jogo.

Saio do albergue por volta das sete horas e, trezentos metros mais adiante, vejo aparecer – em sentido inverso – Pieter com outra peregrina.

(Angelika é fotógrafa, muito simpática, muito interessante, infelizmente não fala inglês nem francês nem português nem espanhol – nem sequer latim. Ah, é prodigioso o que se pode conversar e compartilhar em idiomas distantes… Inimaginável! Na verdade nem difícil é por termos lógicas, hábitos, valores, reflexos, evidências, referências comuns.)

Retornam por encontrarem o caminho inundado. Não há maneira de fazer um desvio? Nem de passar por cima do muro? A água é assim tão profunda?… Quero ir ver e atravessar, se necessário for, com as botas na mão – pois o percurso é muito bonito – mas Pieter e Angelika convencem-me a acompanhá-los pela beira da estrada até Arcozelo. Fazemos sinal a um automobilista que pára, explica o caminho, mais adiante voltamos a ter dúvidas, outra automobilista pára para nos informar. Pieter e Angelika espantam-se.

– As pessoas são tão amáveis!

(Eu lamento o caminho e a quinta do Sabadão, mas sinto-me europeia da cabeça aos pés.)

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