POESIA AO AMANHECER – 322 – por Manuel Simões

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MÁRIO ANTÓNIO

 ( 1934 – 1989 )

            LINHA QUATRO

(fragmento)

            No largo da Mutamba às seis e meia

            carros p’ra cima carros p’ra baixo

            gente subindo gente descendo

            esperarei.

            De olhar perdido naquela esquina

            onde ao cair da noite a manhã nasce

            quando tu surges

            esperarei.

            Irei p’rá bicha da linha quatro

            atrás de ti. (Nem o teu nome!)

            Atrás de ti sem te falar

            só a querer-te.

            […]

            No maxibombo da linha quatro

            sigo a teu lado. Também na vida.

            Também na vida subo a calçada

            Também na vida!

            Não levo sonhos: a Vida é esta!

            Não levo sonhos. Tu a meu lado

            sigo contigo: p’ra quê falar-te?

            P’ra quê sonhar?

            No maxibombo da linha quatro

            não vamos sós. Tu e Domingas.

            Gente que sofre gente que vive

            não vamos sós.

            Não vamos sós. Nem eu nem Zito.

            Também na vida. Gente que vive

            sonhos calados sonhos contidos

            Não vamos sós.

            Também na vida! Também na vida!

            (de “Antologia Temática de Poesia Africana”)

Poeta, crítico e contista. Foi um dos animadores do Movimento dos Novos Poetas de Angola. Estabeleceu-se em Portugal depois de 1963 e, a partir daí, a sua poesia perdeu a conotação africana. Obra poética: “Poemas” (1956), “Amor” (CEI, 1960), “Chingufo-poemas angolanos” (1962), “100 Poemas” (1964), “Rosto de Europa” (1968), “Coração Transplantado” (1970), “50 Anos-50 Poemas” (1988).

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