“UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES”, DE CLARICE LISPECTOR – por Rachel Gutiérrez

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Este texto escreveu-o Rachel Gutiérrez para a badana(orelha no Brasil) do volume 6 das Obras Completas deImagem1 Clarice Lispector, publicadas em 1998 pela Editora Rocco do Rio de Janeiro.  Consideradas mero trabalho de marketing editorial, as badanas não são, por regra, assinadas. Talvez de uma forma geral sejam escritas sem espírito crítico e constituam texto da embalagem do produto chamado livro. Quando se diz na embalagem da margarina que ela  é cremosa, salutar, ou que determinados cereais são estaladiços e que contribuem para o desenvolvimento intelectual, nem qualquer destas afirmações corresponde à verdade, nem há quem reivindique a autoria de tais disparates. Porém, quando se escreve um texto escorreito e sentido, como este de Rachel Gutiérrez, é justo que se saiba quem o escreveu.

 O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas.

   A experiência da protagonista desta aprendizagem mostra afinidades tanto com as provações da bela Psiquê, do mito grego, quanto com a mística aventura da alma, ao atravessar a noite escura, no Cântico Espiritual de São João da Cruz.

Como um quadro cujas linhas mestras o recortassem do grande mistério que tudo contém, este livro, que se pediu uma liberdade maior, é a narrativa de uma iniciação e um extraordinário hino ao amor.  Lóri,a mulher, faz uma longa viagem ao mais profundo de si mesma e chega à consciência total de ser.  Diz:eu é; o homem, Ulisses, um professor de filosofia, que possui fórmulas para explicar o mundo, transforma-se  em algo mais simples, um simples homem. Ambos serão iniciados: Ulisses fecha os ouvidos para as outras sereias porque só está disponível para Lóri, cujo verdadeiro nome é Loreley, como a personagem de Heine e de Apollinaire, uma ondina ou sereia que costumava atrair para os rochedos os barqueiros do Reno. Na verdade, cada um vai encontrar-se consigo mesmo em face do outro.

Por ser trabalho, ascese, viagem, o amor de Lóri e Ulisses vence a diferença, o estranhamento, vence até mesmo a morte, ou o medo da morte. E a entrega finalmente física dos personagens se realiza com força tântrica de êxtase, de epifania. Para Lóri, a atmosfera era de milagre,  Ulisses, estava sofrendo de vida e de amor.

Nada termina, porém, o momento anuncia uma nova aurora: Ambos estavam pálidos e ambos se acharam belos.  Lispector, que se insere sabiamente no possível, fecha com dois pontos a narrativa que começara com uma vírgula.

Após o mergulho abismal de A Paixão segundo G.H., o LIVRO DOS PRAZERES, no oceânico poema em prosa que é a obra de Clarice Lispector, constitui outra culminância igualmente inaugural em nossa literatura.

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