UMA VIRGEM DE BRANCO – poema de Adão Cruz

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Ela percorre a noite com a vida suja enfiada num saco tentando vendê-la ao desbarato enquanto a chuva pegajosa lambe as paredes negras sem lua e os olhos caiem no chão dos curtíssimos horizontes de todas as incertezas.

No ar húmido paira um cheiro a palavras mortas e orações podres amontoadas numa lixeira e o chão é um corpo inundado de terra enlameada de todas as virtudes.

Ela percorre a noite com a alma nua enfiada num saco esperando que do espesso nevoeiro irrompa uma virgem vestida de branco com uma pedra de sol em cada mão.

Mas a noite negra e sem lua apenas lhe promete a morte de estar viva porque o sol é uma mentira tão grande como a verdade das pernas enroladas no medo e na fraqueza.

Ela percorre a noite por entre os buracos da ilusão com a vida suja e a alma nua enfiadas num saco tropeçando nas horas e nos absurdos do sentimento.

E as dores são gemidos mudos entre a cama fria e o vestido rasgado e os braços repartidos numa esquálida vaga de fundo entre carnes a desfazer-se.

Ela percorre a noite remotamente mansa escorrendo o corpo injusto e servil da chuva oleosa de um céu faminto de tempestade e ninguém lhe compra a vida nem a alma.

No duro sono de um vão de escada a morte vestida de virgem branca espera pacientemente entre a vida e a alma a hora de ser a ponte para os restos de um sonho.

 

                                                                                 Ilustração: reprodução de quadro de Adão Cruz

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