A direita está no poder, governa mal, mesmo como direita, e volta e meia lembra-se que um dia destes vai ter de disputar eleições. Então levanta o espantalho da esquerda despesista. Que se forem para o poder vão dar cabo do que já se conseguiu, não terão valido a pena os sacrifícios que fizemos, e outras frases de teor semelhante. Numa frase simples, só eles é que sabem governar. Portanto só eles é que podem estar no poder. É o discurso totalitário, versão fatalista, para nos convencer que eles no poder é o destino inelutável, e que a democracia não passa de uma oligarquia, mais simpática quando nos portamos bem, quando somos bons alunos. Não nos iludamos, esta vai ser a grande questão nos próximos tempos.
A discussão à volta da destruição do estado social vem na sequência. Uma população com direitos e protecções asseguradas está pouco disposta a aceitar sacrifícios, sobretudo quando vê que eles se destinam a salvaguardar os privilégios de uma casta governante. Para isso, os propagandistas disparam a artilharia da culpa é de todos, incluindo os idosos que compraram uma televisão para os ajudarem a passar os serões, e de quem pediu empréstimo à banca para poder comprar uma casa, porque de outra maneira não conseguia habitação própria.
Entretanto vão ocorrendo situações como a de Loures, onde, nas recentes eleições autárquicas, a CDU foi a força política vencedora. Perante as dificuldades encontradas, Bernardino Soares, o novo presidente da câmara, exprimiu preocupações e falou em dificuldades de financiamento e reduções de despesa. Um articulista de direita classificou a reacção como um “choque com a realidade”. Seria melhor procurar saber se há problemas herdados na gestão anterior. Mas o problema é que não é o ser gastador ou não que dá a uma governação a conotação de esquerda, se se quiser ser rigoroso.
A esquerda gasta o dinheiro de maneira diferente da direita, claro. Por exemplo, qualquer governo, se quiser posicionar-se à esquerda, não pode gastar tanto dinheiro com os bancos privados, como é o caso do actual governo, e foi o do anterior. Não pode assumir a dívida privada, tratá-la como se fosse pública, e decretar que todos têm de a pagar. Aliás, nenhum governo democrático, democrático, não oligárquico, o deve fazer. Ao fim e ao cabo a dívida privada portuguesa é sobretudo a dívida de uma minoria. E não digam que é culpa de queria comprar casa e teve de aguentar um empréstimo, ou dos velhotes que compraram uma televisão. Leiam o relatório da IAC, Conhecer a Dívida para Sair da Armadilha, em:
http://auditoriacidada.info/facebook/docs/relatorio_iac.pdf

