Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 137 – por Manuela Degerine

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Tendinites

Ah, o primeiro bom duche do Porto a Valença, com a temperatura adequada, nem frio nem escaldante, raridade muito oportuna hoje… Sinto-me agora melhor, estranhamente leve: larguei toda a lama. Depois de lavar a roupa, que deixei a secar mas, daqui a pouco, hei de pendurar no beliche, contento-me – para jantar – com o que restava na mochila, isto é, uma sopa de soja e uma caneca de cacau. Por ora basta e amanhã encontrarei, quando antes não seja, no Porrinho, uma quantidade de lojas; esta noite mais não posso do que deslocar-me até ao saco-cama.

O corpo e o espírito são indissociáveis, sabêmo-lo ignorando-o até chegarmos aqui, até verificarmos que a distância (ou o peso da mochila) é – em primeiro lugar – uma manifestação do corpo. O Caminho de Santiago vai-se tornando um caminho do espírito através do corpo, o que ele transporta, o que calça, o que veste, o que o protege, o que o esgota, o que o magoa, o que o alimenta, o que o recompõe… Cada dia. E esta repetição produz o efeito dos mantras no hinduísmo: liberta-nos progressivamente dos ruídos internos.

Converso entretanto com um alemão que coxeia, o qual descreve a tendinite que no ano passado eu tive, é natural, percorremos o mesmo itinerário, os nossos tendões e ligamentos reagiram aos mesmos movimentos, repito-lhe portanto as recomendações do fisioterapeuta, é preferível parar durante alguns dias, poucos se não for grave, três ou quatro, talvez a dor desapareça, caso contrário, se insistir, a inflamação pode tornar-se crónica, porém o rapaz quer acompanhar os amigos, entre etapas a pé e, caso não consiga caminhar, etapas de autocarro, vai portanto prosseguir; a maioria dos peregrinos é gente tenaz, audaz, qualidades que – por vezes – se podem tornar perigosas. (Hoje também me doeu o joelho mas, se descansar esta noite, se não abusar amanhã, talvez não seja grave. Não me quero privar deste júbilo e, para isso, a primeira regra é respeitar o corpo.)

No albergue de Valença não há aquecimento, visto toda a roupa seca, calças, peúgas, camisola de algodão, camisola de fibra polar antes de me meter no saco-cama, este aliás adaptado a uma temperatura entre dez e quinze graus, com uma forma que permite deixar apenas o rosto no exterior… Pois não basta. Sinto frio durante a noite e, em particular, a partir da madrugada. Durmo portanto muito mal.

Levanto-me às seis horas, como o resto dos flocos de aveia, converso com a inglesa que conheci em Ponte de Lima… Chama-se Emma.

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