CARTA DE JÚLIO MARQUES MOTA À PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Coimbra, 21 de Novembro de 2013

 

Excelentíssima Senhora Presidente da Assembleia da República,

Excelentíssimos Senhores Líderes das Bancadas Parlamentares

Peço antes de mais desculpa pela liberdade tomada, repetindo um gesto já anteriormente realizado, enviar a V.ª Ex.ª mais dois textos, um texto de Domenico Mario Nuti, um economista que andou muito próximo de Jacques Delors e que dele terá sido consultor para as questões de Leste, com o título, Alemanha: Quando a virtude é muita esta é, então, um pecado, acompanhada da versão original em italiano e um outro texto do jornalista Romaric Godin, do jornal La Tribune. Dois textos que julgo de leitura imprescindível nos conturbados tempos de crise que atravessamos, para todos os nossos eleitos, em especial, e para os interessados nas questões de cidadania em geral. Dois textos tanto mais importantes quanto o de Mario Nuti responde, e muito bem, à questão levantada agora sobre a Alemanha pelo Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, sobre os excedentes na balança corrente da Alemanha e onde aqui se mostra à evidência, por um lado, a parcialidade da referida Comissão para com os mais fortes e os mais fracos, e onde, mais importante ainda, todos nós europeus nos confrontamos com o fanatismo de uma lógica imperial alemã, a sua política económica imposta à escala europeia e ao arrepio de tudo o que é ciência económica, enquanto o segundo, o de Romaric Godin, do jornal La Tribune, nos fala do que não é dito em Portugal pelos media e pelos nossos dirigentes oficiais quanto à Irlanda. Textos lapidares, desses ponto de vista, o texto de Domenico Mario Nuti e o de Romaric Godin. Como cidadão penso, e esse direito ninguém mo tira, que serão dois textos de leitura importante para os nossos eleitos, para que nunca se diga: não sabia. Faço aqui um pouco o papel do júri de Science Po em Paris, há mais de 30 anos, quando colocou como prova de admissão a esta prestigiada Instituição a resposta à seguinte questão: fale-me de um livro que tenha lido recentemente e que ache indispensável que os seus amigos o leiam. Queira-se ou não, goste-se ou não, em Democracia devemos considerar globalmente como nossos amigos os nossos eleitos, dados os cargos que ocupam, e é nesse sentido que envio a Vª Exª estes dois textos em anexo e com o pedido, por essa mesma razão, que faça também o seu reenvio aos Líderes das Bancadas Parlamentares.

No quadro da mesma lógica em Democracia e de respeito pelos cargos dos nossos eleitos mas também face ao silêncio, à mentira ou à ignorância do que se diz ou não diz sobre o que se passa na Irlanda e sobre a exigência de que devemos fazer como a Irlanda para acedermos ao bem-estar e sair da crise, tomo a liberdade de lhe enviar também um texto em que se fala do não-dito por terras lusas.

Se não se tratasse de três dramas, o primeiro, o da destruição da Europa pelas políticas colectiva suicidas que a Troika vem impondo aos países em dificuldade na zona euro, o segundo, o do silêncio político “ensurdecedor” que face a essa realidade a maioria dos partidos apresenta ou mesmo das mentiras produzidas pelos media face à realidade irlandesa, onde por magia do BCE e do governo irlandês, se transforma dívida pública de curto prazo em dívida pública de muito longo prazo e a taxa de juro muito mais baixa, sendo o terceiro o peso esmagador que têm os interesses alemães no desenhar das políticas impostas por Bruxelas, diríamos que se trata de dois textos que se leriam de um folgo só e com muito prazer da primeira à última linha. Mas, porque assim não é, diremos que é com muita ansiedade que procuramos chegar à última linha em cada um deles.

Mas é três dramas que se consideram aqui, e como já se disse, sendo o primeiro o das políticas de austeridade, o segundo, o da desonestidade intelectual que campeia por essa Europa e que impede que esta se levante em peso contra a destruição massiva que lhe está a ser imposta em nome da soberania dos mercados e da verdade que estes produzem na sua fome pelo valor accionista e que a seguir nos impõem e o terceiro drama é a submissão à “teoria” e à prática na política económica e monetária produzida por Jens Weidmann, Presidente do Bundesbank e por Wolfgang Schauble, ministro das Finanças da Alemanha, ao arrepio do que nos diz a economia como ciência, ao arrepio do que nos diz igualmente a história. Essa desonestidade é assumida a dois níveis, no primeiro, por aqueles que recusam o conhecimento científico para se situarem na pura ideologia, a direita pura, diríamos, no segundo, pelos que tendo conhecimento do que se está a fazer, tudo mistificam para se continuar a fazer o mesmo, silenciando também eles a destruição que se está a manter à escala europeia. Por essa via procuram organizar a passividade e o silêncio de povos inteiros.

Eis-nos pois perante dois textos que consideramos de leitura imprescindível no momento difícil que atravessamos.

Certo de que como cidadão cumpro a minha obrigação enviando e sugerindo a leitura dos textos de Mário Nuti e do jornalista Romaric Godin, do jornal La Tribune, subscrevo-me com a maior estima e consideração.

Muito Atenciosamente

Júlio Marques Mota, Professor Auxiliar Convidado na situação de aposentado.

Faculdade de Economia Universidade de Coimbra

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