EDITORIAL – o peso do Brasil

Imagem2Foi no dia 27 de Novembro de 1807 que a família real portuguesa partiu para o Rio de Janeiro – há quem designe esta decisão como “fuga” e há quem lhe chame “transferência da corte”. Talvez tenha sido ambas as coisas – mas, não parece haver dúvidas de que foi uma medida sábia. O estado vizinho, que ainda não era o «reino de Espanha» (só viria a existir de jure em 1812, por decisão das Cortes de Cádis), adoptou a táctica de se aliar a Napoleão – foi engolido e submetido à estratégia que Bonaparte concebera para a Europa, uma Europa imperial com capital em Paris.

A logística necessária ao transporte de Lisboa para o Rio entre quinze e vinte mil pessoas – além de documentos, valores, obras de arte, equipamento militar, não deve ter sido fácil. Mas esta «inversão metropolitana», colocando o coração do estado longe do inimigo, foi a aplicação de um plano que vinha de longe. Em 1580, antes da batalha de Alcântara, o Prior do Crato foi aconselhado a instalar os órgãos de soberania em terras de Vera Cruz; Depois da Restauração da Independência, perante a ameaça da reabsorção de Portugal pelos Habsburgo, desenvolvendo a sua tese da fundação do Quinto Império, António Vieira sugeriu que o reino fosse dirigido a partir do Brasil. O Marquês de Pombal iniciou os preparativos de uma medida semelhante, para colocar D. José I e a família real, bem como o Governo, no Brasil, quando em 1762 tropas espanholas entraram por Trás-os-Montes no quadro da aliança bourbónica entre Espanha, França e Parma, o chamado “Pacto de Família”. Mas houve mais sugestões no mesmo sentido e em épocas diferentes – em épocas e contextos históricos diferentes, D. Luís da Cunha e o marquês de Alorna, defenderam a tese da transferência para o Brasil. Era, pois, um plano recorrente que se cumpriu naquela madrugada de 27 de Novembro de 1807, quando no Cais de Belém, os barcos começaram a receber pessoas e toneladas de arquivos, móveis, louças, esculturas, quadros, roupas, armas…

Quase 15 anos depois, o Brasil tornava-se independente. O imperador era o herdeiro do trono de Portugal o que demonstra que a medida não desagradava ao poder de novo instalado em Lisboa. Não foi uma independência hostilizada pela potência colonial – só isso explica que um homem, como Pedro Bragança, que proclamou a separação do Brasil não tenha sido considerado traidor e tenha reinado em Portugal depois da sua «traição».

Portugal, nação pequena, sem o poder militar do estado espanhol, conseguiu que o Brasil não se pulverizasse em mais de 20 estados, como aconteceu com a América colonizada por Castela. O poder da língua portuguesa, da cultura a ela ligada, está hoje mais sediado no Brasil que, com os seus 200 milhões de falantes e o poder de uma economia emergente se transforma gradualmente numa grande potência, uma das maiores do hemisfério Sul. E não queremos com isto embarcar no triunfalismo de quem esconde favelas e subnutrição com eventos desportivos de grande exposição mediática. Reconhecendo tudo o que de errado e de socialmente injusto persiste, saudamos o que de positivo se tem feito. Com um Brasil de cultura francófona ou de matriz neerlandesa, o nosso idioma estaria, como muitos idiomas europeus a ficar cercado pela actual língua franca e a transformar-se em objecto de estudo da arqueologia linguística.

1 Comment

  1. É muito bom poder reaprender o Brasil pela ótica portuguesa e louvar junto o triunfo da unificação
    de um tão vasto território pela língua, sem dúvida um dos maiores méritos da colonização.
    Obrigada, Carlos Loures!
    abraço da
    Rachel Gutiérrez

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