MARIA EDITE, de MARGARIDA RUIVACO

Um Café na Internet

Maria Edite

Maria Edite trabalha na tipografia.

Não compõe texto, não monta páginas, não escolhe letras nem imagens.

Não percebe de cores, não faz revisão, não cruza referências. Não tem sequer opinião.

Não carrega folhas, não recolhe edições, não faz entregas, não recebe nada.

Não varre o chão, não arruma prateleiras, não limpa as casas de banho.

Não está no escritório, não está na produção, não está no atendimento, não está no armazém.

Maria Edite apenas olha, ouve, cheira, toca a tipografia.

E empurra, para trás e para a frente, para onde quer que ele se lembre, a cadeira de Sr. Eurico Fontes, que, aos noventa e seis anos, faz questão de picar o ponto e  fazer o seu papel de patrão.

Marie Edite também pega às oito, como todos os outros. Apresenta-se à porta e recebe o amo. Nesse momento, deixa de existir, como se conhece. Passa a ser o complemento de Sr. Eurico. Segue, quase hipnotizada, sem falar, sem sorrir, sem espirrar, sem tossir, sem bufar. Só empurra, estaciona a cadeira, e fica de pé, à espera de nova ordem, indicada apenas por um apontar de dedo ou esticar de queixo. Mais vale assim.

Quando apita para as cinco, depois de todos os deveres cumpridos e ainda mais alguns de que o chefe se possa lembrar, estaciona-o de novo na entrada, despede-se com um respeitoso aceno de cabeça e sai porta fora.

Mesmo que chova e faça frio, é sempre mais solarengo e quente que nas excelentes instalações da tipografia gerida pelas filhas de Sr.Eurico Fontes.

A meia hora em que espera sozinha na paragem do autocarro, é mais curta que qualquer outra meia hora do seu dia de motor de cadeira de rodas.

Todos os sons, todo o barulho de trânsitos, aceleradelas e buzinas são música para os seus ouvidos, melhor que os agradáveis sons seleccionados para agradar e fazer produzir mais todos os funcionários e colaboradores da tipografia.

As cinco da tarde, as dezassete horas, são as horas mágicas do seu dia, as horas a que começa a viver. É quando respira fundo e se começa a mover autónoma. É quando a sua língua se desata e pode começar a falar com quem quiser, quando quiser, onde quiser. É a hora a que termina o seu contrato de silêncio.

É quando passa de motor com dezassete anos a mulher de quarenta e três anos, só, mas tão bonita e com tanto ainda para dar a quem a queira receber de mãos, boca e braços abertos.

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