Luís Crespo de Andrade, “’Sol Nascente’. Da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo” – uma leitura por Manuel Simões

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Uma leitura de Manuel Simões de uma revista que, por assim dizer, faz parte da proto-história do neo-realismo português. Foi um texto publicado precedentemente, com variantes, na revista “Rassegna Iberistica (Veneza),de Outubro de 2008.

O projecto de investigação que se propôs analisar a revista “Sol Nascente”, publicação que conheceu 45 números saídos entre 30 de Janeiro de 1937 e 15 de Abril de1940, é, à partida, uma iniciativa digna de maior atenção, se considerarmos que se trata de uma revista incontornável para o estudo do neo-realismo português. A revista reunia um grupo de personalidades que partilhavam genericamente o mesmo ideário, numa relação do pensamento com o contexto histórico (interesse pela actualidade), com a esperança num mundo novo, revelando essencialmente «uma comum oposição a ordem social e política vigente» (p. 11). Pode dizer-se que lançou as bases teóricas e programáticas do movimento que viria a surgir imediatamente com o “Novo Cancioneiro” (1941-1944) e que, neste plano, foi o “banco de ensaio” do qual “Sol Nascente” e outras revistas como “O Diabo” (1934-1940), “Manifesto” (1936-1938) ou “Altitude” (1939) foram teorizando.

Depois do inventário minucioso dos colaboradores da revista, cujo grupo inicial se repartia entre «simpatizantes do marxismo, que progressivamente ganhava aceitação, e adeptos do anarquismo» (p. 12), L. C. de Andrade dedica aqui (Porto, Campo das Letras, 2007), com toda a justiça, um capítulo especial à figura emblemática de Abel Salazar, grande divulgador (com Ruy LuísGomes) do neopositivismo, intelectual que encarnava de modo perfeito a trilogia “ciência, arte e crítica” que a revista assumia em termos programáticos. A este propósito saliente-se a exegese dedicada às polémicas entre o acérrimo defensor do neopositivismo do Círculo de Viena, demolidor da metafísica, e Adolfo Casais Monteiro ou António Sérgio, um debate aceso sobretudo com o segundo, com o qual Abel Salazar estabeleceu uma polémica com pontas de agressividade mútua, com Sérgio a criticar o método de divulgação filosófica e o colaborador de “Sol Nascente” a vituperar o director de “Seara Nova” e a orientação desta “revista de doutrina e crítica”, polémica que levaria José Régio, a partir das páginas de “Presença”, a intervir em defesa de António Sérgio, designadamente pela admiração e o respeito que o seu nome deveria suscitar.

Se, na primeira metade da sua existência, a revista revelava uma colaboração eclética, na segunda parte, que coincidiu, “grosso modo”, com a transferência da direcção editorial do Porto para Coimbra, passou a tomar-se «órgão de uma só doutrina, tendo passado a executar a estratégia política e cultural de um grupo coeso de articulistas, que nela divulgou a sua visão da história e do mundo, definiu o ideário da sua militância, elaborou um discurso próprio sobre a literatura e a arte» (p. 59). Neste aspecto a revista acabou par ser o repositório mais completo da recepção do marxismo simultaneamente orto e heterodoxo, assimilando o pensamento internacional através, por exemplo, dos escritos do filósofo francês Paul Nizan ou dos “Cahiers de la Jeunesse”, de que se tentou até uma publicação semelhante (“Cadernos da Juventude”, n. 1, logo proibido e sequestrado). Para compreender esta mudança de perspectiva, é fundamental o editorial do n. 34 da revista (1/3/1939) que reflectia sobre a passada «orientação um pouco esfumada e imprecisa» mas que se dava conta do evoluir da linha de pensamento, veiculado por um certo método orientador de uma doutrina, para assumir uma intervenção mais activa, tornando-se “Sol Nascente” num órgão que «reage contra a metafísica e o psicologismo, apoiando-se na obra crítica do pensamento dramático; combate pelo neo-realismo como forma de humanização da arte». Deste modo, é absolutamente pertinente a rigorosa síntese de Luís Crespo de Andrade, tendo em consideração o carácter homogéneo e a interacção dos vários autores, cujas diferenças e tensões eventuais se resolviam na procura do mesmo sentido: «bastião de luta doutrinária, que se desenrolou em três frentes principais: o combate às teses a que se opunha e a consequente afirmação, pela crítica e pela polémica, das teses que advogava; a divulgação de textos doutrinários marxistas; a fundamentação da literatura social e a promoção das primeiras manifestações do que, entretanto, se designou pela expressão neo-realismo» (p. 73), designação, como se sabe, já proposta por Voronskii, em meados da década de vinte, para «a combinação original de romantismo, de simbolismo e de realismo» (nota da p. 115).

De realçar ainda, neste excelente estudo, entre outras análises fundamentais, o capítulo dedicado à diamática/diamatismo, vocábulos com alguma frequência utilizados para significar o materialismo dialéctico, contornando a vigilância da censura. Há muito tempo registados nos dicionários portugueses, os vocábulos não surgiram por acaso; nem representavam, como supunham alguns, meros artifícios imaginativos e astuciosos: eram de uso corrente na literatura filosófica e política da época, provavelmente de importação alemã -“diamat” = dia(lektischer) Mat(erialismus) – e igualmente lidos, em idêntica literatura de língua inglesa com o mesmo significado (“dialectical materialism). De resto, “Sol Nascente” deu ampla divulgação ao materialismo dialéctico, quer anunciando, por exemplo, a obra de Henri Lefebvre, “Le Materialisme dialectique” (1940), quer dando a conhecer um extenso artigo da “Nouvelle  Revue Franfaise”, “Que é dialéctica?”, do mesmo autor e com a sua aprovação.

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