A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 44– por Sérgio Madeira

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Capítulo quarenta e quatro

Francisco desempenhara sem falhas a missão de que o alferes Norberto Alves o incumbiu. No dia aprazado, visitou o Padre Manuel no hospital militar, levando-lhe o uniforme e um cartão de identidade que o transformava no 2º tenente da Armada, Manuel Rodrigues Monteiro. Saíram ambos do quarto onde o doente fora colocado na véspera, acompanhados pelo médico, o Dr. Alfredo Nunes que veio com eles até ao átrio. As sentinelas fizeram continência e Francisco, também uniformizado, tomou a dianteira, abrindo uma das portas traseiras de um Mercedes 280 SE, negro, com ar de carro oficial. Com ar um pouco aturdido, Manuel correspondeu à continência de um grupo de soldados com que se cruzou e entrou no carro.

Entre as muitas pessoas que enchiam aquele espaço, nenhum deles reparou num negro que, vestindo a roupa hospitalar, quando saíram, se apressou com o seu par de canadianas a chegar junto de um dos  telefones públicos que equipavam o átrio do hospital. O agente Nachawi estava atento.

Francisco era, como tantos outros um furriel miliciano. Quando fora incorporado, estudava à noite e conseguira completar um curso técnico. Agora que chegava ao fim do serviço militar obrigatório, fez aquilo que na gíria se designava por «meter o Chico» e que significava profissionalizar-se como soldado. O pedido não fora ainda deferido. Estava-se no final de 1973 e sempre  que ia de licença a Lourenço Marques, procurava Maria no mercado. Um namoro não formalizado estabelecera-se entre ambos. O massacre era tema tabu e também nunca lhe falara na informação que o alferes Alves lhe dera sobre o pai. A rapariga tentava não falar de política.

Quando naquela tarde Francisco parou o Mercedes à porta da oficina do tio, em Infulene, Maria que conversava com a tia e uma prima não queria acreditar Francisco, o seu Francisco  e, maior surpresa ainda, o padre Manuel com um uniforme português.

Informada pelo telefonema que Nachawi fizera do hospital, a polícia fez seguir para a oficina do irmão de Kachawa uma brigada.

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