Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 144 – por Manuela Degerine

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Um poema de Pero Viviães, também cantado por Amália, refere-se ao S. Simão de Val-de-Prados (em Macedo de Cavaleiros provavelmente) evocando o ambiente das romarias medievais: as raparigas dançam enquanto as mães queimam velas.

Poys nossas madres uam a San Simon

de Ual de Prados candeas queymar,

nos, as meninhas, punhemos d’andar

con nossas madres, e elas enton

queymen candeas por nos e por sy,

e nos, meninhas, baylaremos hy.

O Caminho de Santiago – por ser longo e perigoso – era na Idade Média sobretudo percorrido por homens. Recuso-me contudo a acreditar que entre os peregrinos não houvesse mulheres; algumas haveria que, quando encontravam romarias, nelas deviam participar. Queimavam “candeas”, iam à missa e à procissão, aproveitavam para comprar pão, vinho, queijo, enchidos, fruta seca ou fresca, descobriam outros trajos, outros costumes, outras linguagens… E as mais “meninhas” talvez também dançassem.

Entretanto muita gente passou a viver virtualmente, vê tudo em ecrãs, faz tudo em ecrãs, encontra no Facebook as suas centenas de “amigos” e, quando sai de casa, vai aos hipermercados e centros comerciais; por outro lado a Igreja deixou de poder de controlar os modos de vida. Uma consequência disto tudo foi as romarias – um tempo social, lúdico, religioso, comercial – perderem a força de atração que durante séculos tinham mantido. No entanto em 2010, na etapa de Barcelos a Ponte de Lima, vi no chão as flores – não pisadas – de uma procissão: a romaria fora na véspera. E no ano passado percorri a etapa do Porto a Vilarinho no dia de Páscoa; a partir de Moreira da Maia, os párocos andavam a benzer as casas, por consequência os habitantes também haviam espalhado flores pelo chão. Os alemães com quem eu passara a noite em Vilarinho na companhia do americano, perguntaram-me o que significavam aquelas giestas e camélias e orquídeas no limiar dos portões. Era não só a ressurreição de Cristo mas também da flora… Uma festa da primavera.

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