Capítulo quarenta e cinco
Alfredo contou como tinham «raptado» o padre Manuel, sob o uniforme e os galões de um 2º tenente fuzileiro, e o tinham levado, em várias etapas, primeiro para Joanesburgo e daí para a Argélia onde ficara até Abril de 1974, quando veio para Portugal. António, comentando que tais operações requeriam uma logística complicada e dispendiosa, perguntou qual o partido ou movimento que estava por detrás de toda esta movimentação.
– Não sei ao certo – e, após uma breve pausa, Alfredo acrescentou – Alves, o alferes, falava sempre na «Organização». Pelo que pude observar, tratava-se de uma rede que implicava gente do Partido Frelimo, da ANC de Mandela, do Partido Comunista de Cuba e, em Portugal, de gente do PC, de antifascistas apartidários e de grupos de extrema-esquerda. Em Argel, houve o apoio do grupo que veio depois a dar lugar às Brigadas Revolucionárias…
– E como é que animais de espécies tão diferentes, se conseguiam manter num trabalho comum? – perguntou António.
– Acho que era expressamente proibida a discussão ideológica… Assisti a uma reunião em Albufeira e nem consegui perceber quem era daqui ou dali – só questões práticas.
– É pena que isso tivesse deixado de acontecer – comentou Cecília.
-Quando, regressados do restaurante, passaram o portão do hotel, perceberam que alguma coisa se passara. movimentação inusitada – polícia, uma ambulância, e, no hall, o tenente Fragoso, com um ar consternado. Cumprimentou Cecília e António e, após Alfredo lhe ter sido apresentado, disse:
– Muito prazer Dr. Nunes – e acrescentou – soube que estavam a jantar no Estrela do Norte e estive para o chamar aqui…
– Mas porquê?
– Houve um tiroteio junto da piscina. Há um morto e um ferido em estado muito grave,… o pianista Manolo…
Alfredo, atónito, perguntou:
– Onde está ele? Posso vê-lo?
– O médico do Centro de Saúde que aqui chegou primeiro, foi da opinião que o melhor que havia a fazer era pedir um helicóptero à Base da Força Aérea e transportá-lo para o Funchal. Acaba de sair.
Cecília perguntou:
– E o morto, quem era?
– Pois. O morto parece ter sido atingido acidentalmente. Era um africano idoso, 79 anos, um militar moçambicano de alta patente, na reserva. Usava bengala, pois coxeava. Um ferimento de guerra, talvez. Estava numa suite. O casal de empregados que o acompanhava, declarou que tinha o hábito de, à noite, se ir sentar á beira da piscina.

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