POESIA AO AMANHECER – 335 – por Manuel Simões

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      GLÓRIA SANT’ANNA

                                925 – 2009)

BAIRRO NEGRO

            As pequenas casas maticadas

            erguem-se de longe (de séculos, de antigas datas)

            contra o mar e as ondas e as algas.

            

            Como remotas conchas embaciadas

            caídas de uma súbita maré alta (lúcida e predestinada)

            entre o areal e as ondulantes palmas.

           

             As pequenas casas cúbicas e caladas

            onde os problemas são primários e as janelas fechadas

            e os tectos de macúti…

           

            Quem sofre dentro das rústicas portas não aplainadas?

            Ou se encosta chorando às trémulas arestas

            projectadas entre ângulos de acaso?

           

            Que mar indeterminado e abstracto

            se reflecte num olhar ou num gesto marcado

            por um ignoto hábito?)

            (de “Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas”)

Portuguesa de origem, radicou-se em Moçambique desde 1951, onde viveu até 1974. Da sua vasta produção poética: “Distância” (1951), “Música Ausente” (1954), “Livro de Água” (1961), “Poemas do Tempo Agreste” (1964), “Do Tempo Inútil” (1975), Algures no Tempo” (2005).

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