EDITORIAL – NELSON MANDELA, UM POLÍTICO DE EXCEPÇÃO.

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As reacções à morte de Nelson Mandela são na grande maioria de respeito e admiração pela sua figura e pela integridade que manteve ao longo da vida. Contudo, as opiniões desabonatórias não provêem apenas de sectores racistas declarados ou encapotados, devendo-se não esquecer que estes últimos são muito mais numerosos que os primeiros. Há pessoas desequilibradas em todos os sectores políticos. Mesmo na área política em que ele se moveu fazem-se-lhe acusações de não se ter mantido fiel ao socialismo e que deixou a África do Sul em muito mau estado.

O mais notável na figura de Mandela é ele ter mudado coisas que se julgavam imutáveis, reverenciadas por todo o mundo, como era o regime do apartheid, e entretanto ter evidenciado um saudável desapego ao poder. Era humano e tinha defeitos como toda a gente, a par da sua invulgar fibra pessoal e enorme resistência ao sofrimento. Quem lhe atribuem responsabilidades pelos problemas da África do Sul, sem ter em conta o passado do país, um país tão rico, devastado por séculos de uma colonização brutal, guerras tribais, um regime de apartheid hediondo e pela exploração desenfreada de recursos com as multinacionais do mundo à cabeça, está obviamente de má fé ou vive noutro mundo bem longe da nossa realidade.

Na realidade teria sido impossível a Mandela mudar, tipo pôr de pernas para o ar, um país com problemas tão gritantes. Ele sabia bem que isso seria impossível. Outros, noutras partes do mundo, tentaram fazer em poucos anos o que requer muito tempo, trabalhando arduamente no melhor sentido todos os dias, e conheceram um fracasso rotundo. Veja-se o caso do Camboja. Por outro lado, a pressão internacional sobre Mandela e a África do Sul nunca abrandou. Repare-se que ele esteve na lista de terroristas dos Estados Unidos até 2008, poucos meses antes de Obama assumir a presidência.  Repare-se que nesse ano Mandela tinha 90 anos. Exercera a presidência da República da África do Sul de 1994 a 1999. Os Estados Unidos colocam nessa lista frequentemente individualidades cujo principal delito, na realidade, é serem seus adversários.

Contra Mandela invoca-se ter apoiado o uso da violência e confraternizado com ditadores. Como poderia ter sido apeado o apartheid se os seus líderes não temessem acabar ficar numa relação de forças desvantajosa, a nível nacional e internacional, após as derrotas que sofreram em Angola, a Rodésia se ter tornado no Zimbabwe e a independência de outros países vizinhos.  Sobre o facto de se racionar com Kadafi e Mugabe, para além de estar por esclarecer a parte que cabe à propaganda, pergunta-se: e quantos países governados por ditadores mantêm laços de amizade com países ocidentais? A melhor resposta deu-a  Mandela: chegou ao poder e saiu do poder por mérito seu. Aonde é que isso acontece? Em Inglaterra, nos Estados Unidos, em Portugal?

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