
Maria Tolentina
Tolentina levantou-se cansada. Sempre cansada, como todos os dias, depois de voltas no colchão duro, dores nas costas, dores nas ancas, mãos dormentes.
Sentou-se na borda da cama, procurou os óculos e endireitou as costas. Olhou para nascente, em busca dos primeiros raios de sol, e acachapou o cabelo denso, crespo, frizado fino, tão escuro quanto o escuro pode ser.
Mexeu o pescoço, subiu e desceu os ombros, abriu o peito, encolheu as escostas, respirou fundo e ensaiou uma primeira vez levantar o rabo gordo da borda do colchão.
“ Ope, Ope”.
Nada.
“Ope, Ope, já está”, pensou, entre esgares de dor, agulhas enfiando-se nos calcanhares, lâminas cortando a planta dos pés.
De mãos nos quadris, esticou-se, endireitou de novo as costas, e , mordendo o lábio, cocheou, mancou até à retrete, onde se aliviou de uma bexiga a abarrotar.
Ganhou coragem para se limpar, limpou-se. Inspirou e fez força para se levantar de novo, “ Ope, vá lá”, enquanto puxava o cordão do autoclismo.
De pés frios no marmorite, chegou-se à bacia, despejou água na bacia e fez uma lavagem vigorosa de todo as as gorduras e odores e esfregou-se na toalha áspera e encardida.
Sobre a camisa de dormir de algodão, vestiu a bata de traçar de cornucópias sobre um fundo tão castanho como se pode ser castanho, assim como ela, calçou os sapatinhos de rede e arrastou-se, de mansinho até à cozinha.
Abriu a porta para a rua, e recolheu a saca do pão, com um papel alfinetado: a conta do mês. Rendeu-se ao número, fechou a porta e colocou a saca sobre a bancada de mármore gasta de anos e limões.
Esticou, com o pé, a passadeira de trapo sobre o chão vermelho do óxido de ferro com cimento, encostou-se à bancada do fogão e inspirou, suspirou, e deitou mãos à tarefa de despejar a cafeteira, lavar e colocar água a ferver.
Lavou também, entretanto, os pratos sujos deixados em cima da mesa durante a noite, atirou para o lixo as cascas de maçã que ficaram em cima da toalha, esfregou as nódoas de vinho em rodelas de fundo de garrafa sobre o algodão florido. “ Não há maneira”, condescendeu, antes de colocar água e lixívia numa bacia funda, onde juntou a toalha e uns panos de cozinha. Lembrou-se do turco fedorento, voltou à casa de banho e trouxe a toalha húmida, e deixou-a de molho, abanando a cabeça com ar reprovador.
Quando a água ferveu, misturou três colheres de sopa, medidas com uma colher tão gasta, tão polida, de café de mistura económica, e mexeu, mexeu, enquanto a água negra fervia, até a espuma subir ao rebordo da cafeteira. Apagou o gás, e pensou na chama que fraquejava, indiciando uma botija no fim. Como o dinheiro do seu porta moedas.
Do frigorífico de esmalte esfolado, que zumbe como um moscardo, retirou os restos da jardineira do jantar e aqueceu na marmita de tampa vermelha. Retirou do saco sujo de cimento os panos manchados, e compôs de novo, com panos limpos, talheres saídos da gaveta, uma garrafa que encheu de vinho do caixote, um copo de vidro gasto, e quatro pões com queijo seco, cortado em talhadas grossas. Duas laranjas do quintal, um canivete com punho de madre pérola. A marmita quente, fechada, embrulhada em papel de publicidade dos supermercados.
Olhou para a saca do pão, quase vazia, em tão poucos minutos, e preparou um pão com manteiga.
Colocou uma caneca de esmalte em cima de uma toalha lavada, sobre a mesa velha e riscada.
Voltou ao quarto, abriu as janelas de par em par, a chamou:
“ Zéé! Zéé!”
O homem levantou-se estremunhado, saiu da cama num salto, e dirigiu-se à casa de banho do corredor, arrastando os pés e a roupa que encontrou dobrada em cima da cadeira.
Maria esperou-o à mesa, serviu-o, aguardou que comesse, estendeu-lhe a mala da bucha e viu-o sair porta fora, sem que ele que ouvisse o “vai com Deus” que lhe atirou às costas.
Não lhe ouviu uma palavra. Nem um bom dia, nem um obrigado, nem um até logo. Só roncos, escarros, bochechos e um peido sonoro. Ao fim de trinta e três anos, já nem achou estranho.
Sentou-se à mesa e sorveu café da mesma caneca esmaltada, que lhe soube a beijos de antigamente.
