
As ondas a quebrar, também quebrado o meu entendimento, De alguma coisa o mar quer me avisar, não entendo e tenho medo. O surdo, o sem raiz.
Eu e os meus garotos pela praia. Éramos cinco a ver as ondas a quebrar em avalanche, estrondo. Falei do perigo, quis todos juntos, de mãos dadas. Contei outra vez, éramos quatro. Faltava a Eduarda, oito anos. O Américo foi a casa, ela não estava. O Carlos foi à falésia, ela não estava, A Marta foi às vizinhas, ela não estava. Inês, a minha mulher, logo soube e veio até nós a gritar ai a minha filha! Corremos o areal todo a chamar pela Eduarda. Juntaram-se meninos e o povo da praia. Mulheres a rezar, carpideiras antecipadas. Mas ó mar, eu não posso perdê-la assim, só oito anos. É muito tenra. Mar, ó mar, não a leves!
Virei costas ao oceano, cortado estava eu com ele. Nisto, por entre os olhos entornados, vejo a Eduarda. Toda espevitada, aos saltinhos, pardalito. Sem dizer nada a ninguém tinha escapado para casa da D. Amélia a aprender a fazer pássaros de figos e amêndoas. Corro para ela, ansiedade. Puxo-lhe a trança, viro-a. Acerto-lhe um estalo, logo as ventas a sangrar. Levanto-a do chão. Levo-a para casa. Ao colo, abraçada a mim, corpinho quente, soluçava muito.
No dia seguinte, de manhãzinha, o mar deu à praia o corpo de uma rapariga.. Cabelos pretos, longos. Virei-a, carne enregelada. Os seios a despontar, talvez uns catorze anos, promessa de mulher. Fanada, fanada,,,
As ondas a quebrar, também quebrado o meu entendimento, De alguma coisa o mar me quer avisar, não entendo e tenho medo. O surdo, o sem raiz.
