Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 150 – por Manuela Degerine

O albergue dos quatro sentidos

imagem158Levanto-me muito cedo e, enquanto tomo o pequeno almoço, Pieter confia-me o tumulto que se vai amplificando à medida que ele avança no Caminho de Santiago, sentindo e analisando ao mesmo tempo, deformação profissional, alguma perplexidade, muita curiosidade, não pouca contrariedade, com os anos, com a profissão, com a experiência que tem: vê-se de repente em crise.

– O grego “crisis” significa “decisão”.

– Eu só quero caminhar!

Começa a haver gente à nossa volta, centramos o debate na etapa de hoje. De Pontevedra a Caldas de Reis há vinte e três quilómetros, Pieter, Angelika, Jette, Franz e Mika, os eleitores de Frau Merkel, vários outros peregrinos, isto é, quase todos os que aqui estão projetam dormir no albergue privado onde pernoitei em 2012.

É um lugar que não corro o risco de esquecer. A proximidade dos beliches – pois instalaram o máximo de camas – garante-nos de imediato a sinfonia noturna, acrescentemos a isto as carateríticas do duche e casas de banho, sem janelas, com aeração deficiente, logo começamos a idear no albergue de Caldas de Reis alguma densidade sensual, mesmo esquecendo as diarreias que este ano circulam no Caminho de Santiago, iremos porém mais longe e, ao som e odor, adicionaremos a visão das botas, bordões, sacos, mochilas, impermeáveis, roupa suja ou molhada, empilhados à volta dos beliches, isto é, por não haver alternativa, onde deveríamos circular, juntemos portanto, consequência disto tudo, as nódoas negras quando nos levantarmos de noite e tropeçarmos nas bagagens, nos beliches, em todos os outros insones… (Retiremos apenas o gosto: o albergue não tem cozinha.)

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