

III
Esta segunda parte da história é muito mais lúcida que a primeira e dela, como dos bons e velhos canivetes sem basófias não há que tirar senão uma conclusão: a felicidade que a vida nos pode dar está em relação directa com as ambições do nosso coração.
Certo é que, pela existência fora, não há simplesmente as ambições do coração. Há também as necessidades da matéria. São fonte perene de desventura e, em boa verdade, acho muito menos interessante quem sofre de não realizar as suas ambições do que os que padecem por não poderem satisfazer as suas mais urgentes necessidades.
A verdade, porém, é que a infelicidade no domínio do espírito nos comove muito mais que a proveniente das dificuldades banais da vida. A culpa principal incumbe à Literatura. Se és romancista – e mesmo que não o sejas – experimenta fazer um livro contando as desditas de um pobre chefe de família numerosa, arreliado com a carestia da vida, passando o tempo a pedir em vão crédito no padeiro e no açougue e forçado no último capítulo a devorar – qual outro Ugolino – o seu menino mais novo. Todos acharão banal o entrecho e exagerado o remate da obra, que é afinal, o grande romance de todos os dias.
Narra, porém, as aventuras de um idiota que sofre horrores pelo desamor de quatro mulheres e, tendo nascido amanuense, deseja ser ministro das finanças, que, não possuindo no bolso com que mandar cantar um cego, aspira á fortuna de Vanderbilt, e verás o leitor apaixonado, revendo-se naquele espelho de paixões inúteis, a engolir sofregamente os capítulos e mesmo o índice. Claro que não deverás, no decorrer da narrativa e sob pena de banalizares o teu trabalho, referir-te a factos aliás muito sérios da vida, tais como Artur – o herói da novela – ter esperado em vão a vinda da lavadeira na manhã em que se lhe vão lançar nos braços duas condessas e a órfã do general de brigada. Também convém que o amanuense não deixe de comparecer no tango da nunciatura por falta de botas. Diriam que a tua obra é humorística e deixaria de merecer a consideração dos espíritos bem formados e elegantes.
Se razões de família te impedirem de ser romancista e apenas pretenderes interessar a atenção de um amigo, experimenta travar-lhe do braço, levá-lo para um recanto escuro e contar-lhe que padeces de uma doença complicada e incurável. Vê-lo-ás, de súbito, lembrar-se que tem um negócio urgente e tomar o primeiro tramway que passar nas proximidades com pena de não ter tomado o antecedente. Confia-lhe, porém, que vais suicidar-te por não poderes dar um colar de pérolas a uma corista de opereta e por que uma operação de fundos, que devia enriquecer-te, te deixou afinal sem fundilhos e verás o teu amigo devorar-te com os olhos e beber regaladamente a narração dos teus infortúnios, embora tenha acabado de almoçar um prato de orelheira com feijão regado por três quartilhos de verdasco.
(continua)
