EDITORIAL – DA CATEDRAL AO CENTRO COMERCIAL

Imagem2As teses demiúrgicas atribuem aos deuses a criação dos homens. No entanto, até onde chega o conhecimento, tudo indica que tenham sido os homens a criar os deuses, explicando com eles o que o seu saber não alcança. Mas deuses com mil anos, com quinhentos anos, vão ficando desajustados. Tal como nos programas informáticos, o software tem de ir sendo actualizado…

Usámos já muitas vezes a referência à personagem do arcediago criada por Victor Hugo no romance Nôtre-Dame de Paris. Claude Frollo abre a janela, olha nostalgicamente a Nôtre-Dame, aponta um livro impresso, e diz: – ceci tuera cela. A prensa de Gutenberg, em finais do século XV, era considerada como a assassina das catedrais. Temia-se que a «bíblia de chumbo» matasse a «bíblia de pedra». A arquitectura gótica, a escultura, a iluminura ou a glosa medievais eram eixos da cultura da escrita. Porque além de repositórios do saber acumulado, uma catedral constituía um ponto de encontro, um destino para as famílias nos domingos e dias santos. Esculturas, gárgulas, túmulos, retábulos, eram vistos, discutidos, interpretados, lidos – as sagradas escrituras estavam ali e havia quem, sendo incapaz de juntar as letras, sabia converter uma escultura num versículo… As cidades desenvolviam-se em torno da sua catedral. As catedrais eram mais do que simples templos, pois reuniam o conhecimento disponível na época a partir de escassas fontes – o Antigo Testamento, os evangelhos e pouco mais, pois o perigo da heresia estabelecia fronteiras ao saber. Claude Frollo, perante uma “nova tecnologia da informação” temia por uma forma do saber medieval que, cinco séculos antes fora também revolucionária.

Hoje, teme-se pelo livro, pelo disco, pela televisão, pelo jornal, pela rádio… É evidente que são formas perecíveis de transmitir ideias – algumas sobreviverão, evoluindo paralelamente às novas, e continuando a integrar o sistema de saber que é um corpo em mutação permanente. Outras morrerão. As catedrais que pelo ano mil começaram a ser erguidas sob o pretexto de louvar Deus, eram exibições de poder económico, de abastança – mas aproveitando a soberba de mercadores e das famílias dominantes, artistas e artífices, arquitectos e matemáticos, ergueram estruturas que eram erigidas em louvor do saber, mais do que em intenção de qualquer deus.

Mais cinco séculos decorreram. As catedrais já não abrigam as famílias em domingos e dias santos. As famílias circulam agora pelos corredores aquecidos dos centros comerciais, parando nas montras e, na maioria dos casos, sem nada comprar. Naquele  final do século XV em que o arcediago temia pela morte das catedrais, começava com os Descobrimentos a era capitalista. O mundo ia mudar e o velho deus só servia para atrapalhar as trocas comerciais.

Um novo deus nascia. O do consumo.

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