Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 159 – por Manuela Degerine

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Senhor dos Caminhos

Restam-me pela frente dez quilómetros, os mais difíceis, os mais compridos, os mais demorados, os que dão tentações de cair à beira da estrada. Eis a primeira lição do Caminho de Santiago: os quilómetros não são todos iguais. Há-os muito curtos no início de etapa, porém os trigésimos estendem-se numa progressão geométrica, mais ainda se houver – como aqui – lama que obrigue a fazer desvios, a subir e descer paredes, a pular com a mochila às costas… E as encostas também contribuem para os esticar. Caldas de Reis encontrava-se a 26 metros de altitude, subirei até 165 em Gorgulhon, o ponto mais alto da etapa, a seguir desço um pouco pois, se não me engano, o albergue situa-se a 140 metros, no lugar onde, no ano passado, encontrei a brigada de polícia: uma presença simbólica e simpática.

Nunca ouvi dizer que os peregrinos fossem agredidos no Caminho de Santiago. Aliás na Galiza ninguém pergunta: “E não tem medo?!” (O medo é português.)

Em contrapartida os andarilhos podem sofrer acidentes, o que menos do que nunca agora me convém, pois talvez seja hoje a última a palmilhar estes trilhos. E não quero ser transportada de maca durante quilómetros, isto é, transferir para os outros as consequências dos meus atos. Não, nem pensar… Redobro portanto de prudência e – a cultura é a nossa coluna vertebral – encomendo-me ao Senhor dos Caminhos da aldeia de Rãs… na Beira Alta. Jesus foi um grande caminhante…

Longe vai todavia o tempo dos peregrinos sem bagagem que vemos na pintura, na escultura, com o bordão, o chapéu, o manto e uma pequena bolsa, porquanto nós hoje não dispensamos, mesmo aqui, um mínimo de higiene e conforto, portanto suspendemos dez quilos nas omoplatas, confiando aos fabricantes o milagre de os tornarem transportáveis. Ah, ter ou não ter uma mochila adaptada ao corpo, equipamento tão essencial quanto as botas, tão difícil de escolher quanto estas, sendo a terceira utilidade – para quem parte na primavera – um bom impermeável, a quarta um bom saco-cama… Comecei a percorrer o Caminho de Santiago com equipamentos novos mas inadequados; e foram precisos quatro anos para ir encontrando o que mais me convém. Aqui o “bom” associa-se sempre com o “leve”, porém um impermeável, para só dar este exemplo, não pode – é claro – deixar passar a chuva e, em contrapartida, convém que liberte a transpiração, para além de ser fácil de pôr ou tirar com a mochila às costas… Encontramo-nos no fim de contas carregados como camiões e capazes de transportar a carga durante doze horas de caminhada. Graças portanto a esta mochila – que sucede a outras sumamente incómodas – não me doem por enquanto as costas!

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